
Eu sou...
Larissa Fernandes
21 anos já perdidos
...atendimento publicitária e jornalista, redatora, desenhista, escritora, compositora, guitarrista, cantora, capoeirista, sonhadora, crítica, rockeira, leitora, bloggeira, louca, apaixonada pela vida, amiga, polêmica, chata, gente boa, "do contra" e sempre muito feliz!
Debruçada sobre:
Notas de Um Velho Safado
--- Charles Bukowski
O Homem Que Calculava
--- Malba Tahan
Escutando muito: Queen, Radiohead, Feist, Pulp, Bic Runga, David Gray, Suede, The Beautiful South!
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Neste momento meu sonho é: Não ser demitida do meu emprego..
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Larissa Fernandes
[Quinta-feira, Outubro 11, 2007]
Acostamento esburacado, um corpo ali deitado
A rua congelada, uma alma arrancada
A sirene vem tocando, o culpado se retirando
A polícia o persegue, mas a grana ainda é leve
Um inocente foi morto, os corruptos absortos.
Na avenida em outra hora, uma criança pede esmola
Um rico em sua mercedes, nega saciar sua sede
Uma velha em sua tristeza, esqueceu a dor da pobreza
Todos negam um trocado, o garoto chora, coitado
Um país que julga tanto, o recebe com espanto.
Numa casa desarrumada, uma humilde empregada
Recebe as dores e surras do patrão, sem sequer poder levantar sua mão
A esposa mesquinha que a perturba, seu filho avarento a derruba
A casa a recebe com más vindas e ela, sem outra opção, a limpa
Quem nesse meio não conhece a desgraça, de sentir desgosto de sua própria casa.
Senadores, Governadores, Prefeitos e tudo mais, prometem a sociedade combater guerra e trazer paz
São sócios dos ladrões, inimigos das crianças, poder e riqueza são suas únicas ânsias
Que vida é essa de mentira e julgamento, trazendo para o Brasil apenas dor e sofrimento
Conheçam os verdadeiros cidadãos de suas terras, aprenda a prometer e cumprir suas promessas
Amem como nós, com paixão, o seu país, nos ajudem para que todos, unidos, possamos garantir, para todos, um futuro mais feliz.
por Lalá Fernandes * 9:51 PM
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[Terça-feira, Dezembro 05, 2006]
Para uns eu sou a mulher de mil e uma personalidades. Para outros, não tenho nem uma. Eu gosto de tudo e, ao mesmo tempo, não gosto de nada. Explicando melhor: eu tenho uma rara e excêntrica tendência de me interessar em praticamente tudo que descubro de novo. Com esse interesse vem junto a ânsia de aprender a exercer aquela determinada atividade da melhor forma possível e, com o tempo, descobri que tenho facilidade para aprender qualquer coisa que quiser. Basta querer o bastante. O problema é que, quando a facilidade se instala, eu produzo por algum tempo. Esse tempo dura um tempo indeterminado, até que alguém comente ou elogie. Daí eu perco o interesse e acabou-se a era de tal atividade. Não gosto quando as pessoas prestam atenção demais às coisas que eu faço, pois começam a criticar e exigir e isto é algo com o qual eu não consigo viver.
Eu nasci para a vida da comunicação. Troco qualquer coisa por uma boa conversa. Mas, conversas supérfluas foram embora junto com a minha adolescência. Não tenho paciência para bobagens e idiotices. Que eu não seja mal compreendida. Sou brincalhona, meninona, conto piadas bobas, estórias sem sentido, rio com a maior facilidade e sinceridade do mundo. No entanto, se eu notar que toda a capacidade de uma pessoa se resume a besteira e português ruim, procuro distância. Gosto de conversar sobre os livros que li e os que não li, das músicas que gosto e das que ainda não escutei, sobre o mundo agora e o mundo no futuro. Uma pessoa que consegue manter uma conversa interessante comigo por cinco minutos, me ganha. Sou arrodeada por pessoas que adoram falar e nunca escutam. Por um lado, isso é bom porque, em silêncio, faço minha avaliação da sociedade em que vivo. Por outro, isso prejudica minhas amizades porque, após alguns anos, as pessoas perceberão que nunca me conheceram. Por isso mantenho um forte vínculo com meus antigos amigos. Se existe algo chamado equilíbrio, seria nossa amizade. Equilíbrio e respeito
Tenho uma sede incansável pelo novo, pelo desconhecido, pelo mistério, pelo conhecimento. Não consigo ler menos do que quatro livros ao mesmo tempo. As vezes me angustia o pensamento de que talvez não consiga ler todos que gostaria durante uma única vida. Leio todos os tipos. Por que? Porque quero saber tudo sobre tudo. O mesmo com música, escuto tudo. Algumas músicas eu gosto por causa das letras, outras por causa da melodia, outras ainda apenas porque me fazem sentir bem e o resto, por diversão. Esse interesse se estende aos instrumentos. Tento aprender todos que puder. Apenas para ter o prazer de poder tocar qualquer música que me conquistar.
A minha falta de personalidade (ou a minha abundância dela) faz com que eu consiga me dar bem com qualquer pessoa. Sou paciente e impaciente, agoniada, prestativa, atenciosa, preocupada, desorganizada e irresponsável, calma, agitada, enfim, tenho meus momentos. Tenho virtudes o bastante para agradar dois terços da população do mundo e defeitos o bastante para enlouquecer os que estão próximos a mim.
Ao contrário de muitos, tenho plena consciência das minhas virtudes e dos meus defeitos. Convivo bem com ambos. Procuro viver minha vida sempre de forma que não tenha nada com o qual me arrepender no futuro. Isso não quer dizer que nunca tenha cometido erros. Sou sincera. Já cometi muitos, muitos mesmo. Alguns bastante sérios. Mas, acredito que estamos aqui para aprender. Então, para mim, cada erro é um passo no caminho da minha própria evolução. Esses e muitos outros pensamentos fervilham na minha cabeça o dia inteiro. Aprendi muito cedo a descarregar tudo no papel e faço isso constantemente.
Tenho metas na vida. Quero ter sucesso profissional, talvez montar uma empresa própria um dia. Quero ser escritora, artista, cantora, morar só, namorar e acabar milhares de vezes, experimentar decepção, fracasso, sucesso, a mais profunda tristeza e a mais incrível felicidade. Tenho algumas particularidades que muitas pessoas estranham. Eu tenho uma pena angustiante dos animais - choro ao ver um jumento puxando uma carroça -, não tenho ¿frescura¿ com absolutamente nada, falo abertamente sobre qualquer assunto para qualquer pessoa, fumo, bebo, faço os esportes que ninguém quer fazer: capoeira e kickboxing, gosto das músicas que ninguém gosta, sou cinéfila assumida, tenho amizade com filósofos, poetas, músicos, boêmios e também pessoas ¿normais¿, choro sem motivo, sorrio sem motivo, amo tudo e todos, confio cegamente no mundo e tenho certeza que um dia seremos orgulhosos de morar nesse pedaço de terra chamado Brasil.
Resumindo: tenho uma personalidade indescritível e mais características do que os caracteres no Microsoft Word podem suportar. O que posso dizer é que sou intensa em tudo que faço e procuro sempre aprender, aprender, aprender. Seja na minha profissão, no amor, na amizade, na família, na música, na literatura. Procuro sempre descobrir um novo talento. Tudo isso porque me sinto bem em conhecer cada vez mais a mim mesma, as pessoas e o mundo. E sou uma pessoa satisfeita e feliz por saber que jamais saberei tudo. Mas, esse pouco que sei é o bastante. Por enquanto.
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[Segunda-feira, Outubro 09, 2006]
Minha conversa com Deus
Um dia eu conversei com Deus. Ele me disse que dor todo mundo sentia e que se não sentisse, jamais conheceria o alívio.
Deus me disse que errar não é pecado. Pecado é agir sabendo que a ação é um erro. Pecado é errar sabendo que aquele erro causará dor a alguém estimado.
Então fiquei tensa, mas Deus me disse que quando se ama, os erros são perdoados. Mas deve-se ter cuidado para não ferir novamente o coração magoado, pois um bom coração não merece ser quebrado duas vezes.
Eu tinha mais algumas dúvidas e perguntei a Deus por que insistimos em traçar maus caminhos. Ele me disse que só crescemos quando conhecemos tudo de bom e de mal que existe neste mundo. Que só faremos boas escolhas quando já tivermos experimentado más escolhas. Mas, que tivéssemos cuidado, pois se agirmos irresponsavelmente sempre, nos perderemos nestes maus caminhos e poderemos não encontrar nosso rumo novamente.
Então perguntei a Deus por que temos que ver alguém a quem amamos falecer. Ele me disse que a morte é uma coisa totalmente normal, que a vida é uma dádiva e o nascimento, um milagre. Então devemos festejar o nascimento, aproveitar e respeitar a vida e aceitar a morte.
Outro dia estava conversando com Deus e perguntei por que havia tanta guerra, tanta raiva, tanto descontentamento nesse mundo. Ele abaixou a cabeça e ficou pensativo. Seus olhos pareceram tristes e notei uma gota de lágrima caindo do seu brilhante olho esquerdo. Ele se virou para mim e disse: "Minha filha, eu não sei". E percebi que todos os dias magoamos Deus.
Tentei animar a conversa e perguntei o que ele achava da minha vida até agora. Ele ficou pálido, sério, hesitou um pouco. Disse-me que eu lutava contra as verdades, contra o certo, contra tudo que ele havia planejado para mim. Disse-me que eu O havia renegado, esquecido, maltratado. Chamou-me de hipócrita e de irresponsável. Disse que eu não tinha consideração pelos meus pais, pela minha irmã ou qualquer outro da minha família. Que eu não dava o valor necessário a tudo que eles me haviam proporcionado, que tudo para mim era lixo e eu não conhecia o significado de respeito. Jogou-me no chão e disse que eu perdi os meus valores, que perdi minha fé, minha moral, meus sonhos e até minhas conquistas. Para piorar a situação Ele disse que eu desaprendera a amar, a gostar, a dar e a receber carinho. Virei uma rebelde pós-modernista, com valores fracos e nenhuma perspectiva de crescer. Disse que eu virei uma verdadeira ilha de desespero.
Meu chão já era um rio de lágrimas enquanto Deus e eu chorávamos juntos. Nos acalmamos e, entre soluços, perguntei a Ele: "e agora".
Deus juntou todas as forças do universo e alisou os meus cabelos. Uma onda de paz me percorreu e me acalmei. Ele disse: "Você sabe quais são seus erros. Estou te dando, de presente, a mais poderosa ferramenta para que você resolva seus problemas: minha fé em você. Faça-me orgulhoso."
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[Sexta-feira, Setembro 15, 2006]
Ela era um oásis de areias brancas e sedosas que inundavam minha visão com seus movimentos abstratos e excêntricos. Seu presença era um ímã que me atraía a cada ponto sensual do corpo. Meus olhos nao viam a festa, as luzes, as pessoas, os olhares. Só viam ela, bela, seu todo num êxtase inimaginável, fantástico. Ela era a própria razão da minha maravilha. Ela dançava como se fosse a primeira dança do mundo, a primeira mulher a se perder num labirinto de ritmos e palavras.
Eu suava descontroladamente. Meu corpo tremia como uma nave espacial se preparando para decolar. Me imaginava voando em alta velocidade rumo ao céu com ela ao meu lado, olhando com para mim com aqueles olhos tristes de mel. E ela me perguntava "para onde vamos" e eu dizia "vou te mostrar as estrelas". Mas ela era quem guiava nossa aventura, ela comandava e mandava e eu obedecia como se o objetivo da minha vida fosse satisfazer suas vontades.
Eu virava e girava e procurava algo para desviar minha atenção, mas ela me corroía. E eu deixava e gostava. Perdi toda a vergonha. Todos os meus segredos foram revelados para o mundo e eu estava livre. Uma onda de alívio me percorreu o corpo, a alma. Parecia que esperava por aquele momento há milênios. Aquela mulher que faria com que se despertasse o melhor que havia em mim, o natural e lindo que havia em mim.
Ergui a cabeça e rezei para não me lembrar de nada no dia seguinte. Rezei para que o álcool guardasse toda aquela noite à sete chaves do meu consciente para sempre. Que apenas restasse uma sensação de felicidade e ternura.
A forte e pesada bateria de um rock qualquer que tocava, aos poucos, ia aumentando a minha coragem. Até que o solo da guitarra estourou, empurrando meu coração de encontro ao dela, carregando meu corpo em direção ao dela, fixando meus olhos aos dela que, para minha inocente surpresa, me olhavam com o mesmo desejo que os meus. E eu a engolia, a despia, a lambia com meus olhos. Via toda a extensão macia da sua pele, o emaranhado dos seus cabelos negros, a sua vontade de se entregar para mim.
Eu já quase correndo em direção a ela, esbarrando em pessoas sem rostos, sem identidade. Ela estava num êxtase que deixava sua face rosada, maravilhosamente corada. Eu cada vez mais perto e ela abria, lentamente, seus lábios. Sua língua brincava dentro da sua boca úmida, me convidando a provar da sua água, me convidando ao seu feitiço.
Cheguei ao seu encontro e não haviam palavras. Ela alisou meus cabelos longos, quase tão negros quanto os dela, acariciando meu pescoço e meus ombros. Me tomou pela mão e me puxou ao seu encontro. Virei, de repente, uma criança em suas mãos. Vi as pessoas se afastando de nós com surpresa. Ela me sorriu o mais lindo sorriso que jamais havia visto e, me puxando pela cintura, se agarrou em mim e me beijou com aqueles seus lábios que atraíam a atenção de todo homem que passava. Seu beijo era como o primeiro beijo do mundo. Eu sentia cada centímetro do seu corpo que me tocava. Agarrei-me a ela e nos perdemos nos nossos beijos e nossas peles.
Eu a invejava pela sua determinação e despreocupação com a nossa platéia. Sua mão desceu do meu pescoço até meus seios - já endurecidos de tão excitados. E, juntas, exploramos nossos corpos por cima das nossas roupas e eu já não via ninguém, já não escutava a música. Só sentia a euforia do nosso encontro e o desejo, cada vez mais ardente, de tê-la comigo pelo resto da noite. Sua mão subiu a minha saia e acariciou minhas coxas e eu, já sem controle, enfiei a minha dentro da sua blusa e senti toda a rigidez excitante de seu seio. Nossas línguas não se separavam. Chupei seu pescoço, lambi seu decote e ela me agarrava e me apertava e por mim eu morria ali mesmo. Foi a minha primeira noite, meu primeiro verdadeiro beijo, meu único desejo.
E senti uma pressão no meu ombro que não era ela. Virei-me desconcertada e olhos tristes e confusos me olhavam emanando daquele corpo cheio de músculos e carinho que pertencia ao meu namorado. Ele me encarava como se não me conhecesse. E, por um segundo, eu também não me conheci. Não era a mesma. E tudo havia mudado.
Mas, por enquanto, ainda me restava uma dança e mais um emaranhado dos meus cabelos com aqueles brilhosos cabelos negros que pertenciam ao meu novo futuro.
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[Sábado, Agosto 26, 2006]
Year Long Prayer
(resposta à New Year's Eve Prayer de Jeff Buckley)
I pray that you will smile always at the silliest things and the lamest jokes.
I pray that you will kiss your lover whole, inch by inch, skin by skin, until everything is permanently stained and scarred with your love.
I pray for everlasting temporary relationships for which you will cry endless tears of sorrow and happiness.
I pray for true love at least once in your lifetime, even if it doesn't last.
I pray that you will enjoy full glasses of cheap red wine of the most terrible taste with your closest friends on a boring saturday night while laughing at nothing in particular.
I pray that you will wake up the next day and swear, in the midst of a catastrophic hangover, that you will never drink again. (until next saturday, of course)
I pray that you will cry with every cheesy movie and every highly uninspired commercial. (never hold back your tears)
I pray that you will listen to romantic radio stations every time your heart is broken and imagine yourself flying to somewhere far away everytime you feel you won't make it. (just be careful not to fall)
I pray for kaleidoscopic frenzies, lights flashing blindingly and hipnotic music loudly playing, forcing your body to move in its rhythm, losing yourself in an abstract dream of powerful ecstasy.
I pray that you will dance in each and every opportunity.
I pray that you dream and in your dreams discover the beauty of your soul.
I pray that you discover the magical power of a smile.
I pray that you will never hide your emotions and refrain your thoughts.
I pray that you understand that knowledge is the most powerful weapon you will ever handle.
I pray that you will accomplish all these little things that you probably won't remember in a little while, for it's the things we don't keep that really matter.
I pray that you become free.
I pray that you see.
I pray for you and me.
I pray.
[Larissa Fernandes]
por Lalá Fernandes * 4:54 PM
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[Quinta-feira, Maio 04, 2006]
Depoimento
Chão sujo, objetos caídos em desordem, nada onde devia estar. Sombras confusas por toda parte, um jogo mirabolante de luzes nas paredes, talvez um abajur ou uma lâmpada qualquer quebrada. Vozes gritando, talvez desesperadas, talvez dando ordens. Através da janela um muro branco estampado com pegadas e manchas vermelhas. Mais sombras, indo, voltando, dançando no quintal. Um objeto prateado flutua pela sala, brincando, zombando, pedindo para ser pego. Ele vai e vem e quanto mais tento pegá-lo, mais fraco fico, mais vulnerável fico. Um vulto preto mistura-se com a escuridão da noite. Minha cabeça dói, impedindo-me de entender o que acontecia. A visão perfeita da qual sempre me orgulhei me traía, me enganava, me sentia míope, cego. Borrões, manchas, sombras, nada claro, nada nítido. Não havia dor, não havia raiva, já não sentia nada. Mais vultos negros. Será salvação? Será socorro? Manchas vermelhas por todo canto. Estava acabando. Iria ficar tudo bem. As vozes se acalmavam, a luz clareava, as manchas se tornavam mais nítidas. Um peso levanta-se do meu corpo, rendendo-se aos vultos, fiquei leve, suspirei, estava aliviado. Havia acabado. Com o que me restava de forças, levantei-me. Estava sangrando, mas não havia feridas. Um objeto metálico cai da minha mão, enquanto os vultos negros me envolvem. Finalmente, um pouco de ar livre, um pouco de paz. Tudo certo, tudo em seu devido lugar, tudo como deveria estar. E um par de algemas atando minhas mãos para garantir que tudo continue assim.
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[Domingo, Abril 16, 2006]
Diálogos
- Você está triste?
- Sim.
- Por que?
- Porque estou feliz.
- Como é possível ficar triste quando se está feliz?
- Precisamos conhecer a tristeza para sentir a felicidade. E, além do mais, nem toda tristeza é ruim. Tristeza nos faz pensar, mesmo que irracionalmente, às vezes.
- E por que você está triste?
- Por que perdi algo que não queria ter perdido.
- E por que está feliz?
- Por que o que perdi eu amava muito, ainda amo. E me trouxe boas coisas.
- Foi um homem?
- Claro.
- Você o amava?
- Eu o adorava. Ele me fazia sentir bem. Mesmo sem ele aqui, ainda me sinto bem.
- Esse homem partiu seu coração?
- Ele acha que sim.
- E não foi?
- Ele não partiu meu coração. Ele o reparou.
- Como assim?
- Antes dele eu pensava que o mundo era de outro jeito. Pensei que, pelo resto da minha vida, iria amar pessoas que não me amassem e que pessoas que eu não amasse iriam me amar. Pensei que estava destinada ao caos.
- Não pensa mais?
- Claro que sim. Minha vida é um caos, mas por opção minha. Mas, acontece que nos últimos tempos, em matéria de amor e relacionamento, as coisas fugiram do meu controle.
- Como assim?
- Fiquei um pouco apreensiva pensando no futuro. Comecei a achar que nunca encontraria uma pessoa certa. Ficava imaginando todo tipo de traição e mentira que meu futuro marido poderia fazer. Imaginando que me separaria, casaria de novo e separaria novamente. Comecei a desacreditar no amor, no afeto, na fidelidade. Achei que estava destinada a ser amorosamente infeliz.
- E o que mudou tanto depois desse relacionamento?
- Passei a perceber que existem pessoas boas, que existem sentimentos verdadeiros, sinceridade, conversa, amizade. Voltei a acreditar em muita coisa que já tinha fugido da minha vida. Me sinto um pouco mais madura, um pouco mais resolvida a ajeitar a minha vida.
- Então que parte de tudo isso te deixou triste?
- A parte em que tivemos que dizer adeus.
- Que mais?
- Acho que não tenho mais nada para falar.
- Não quer conversar sobre mais nada hoje?
- Não. Acho que consegui tudo que estava procurando.
- Você veio fazer somente uma sessão de terapia?
- Sim.
- E já terminou?
- Já.
- E no que eu ajudei?
- Aqui é o único lugar onde eu posso desabafar sem que ninguem me julgue, me critique, me dê conselhos ou qualquer outra coisa. Aqui é simples. Eu pago, você escuta. Obrigada pela ajuda, Dr..
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[Domingo, Abril 09, 2006]
Desabafo
Sentada em uma cadeira de balanço olhando através da sala, dos objetos insignificantes, para o infinito. As lágrimas desenhavam alguma pintura abstrata em seu rosto. Um choro silencioso, repleto de lembranças, risadas, carinhos. Um pouco de tristeza, de saudade. Todas as memórias inundando seus pensamentos sem que pudesse impedir. Aquele dia deitados na rede na casa de praia. A brisa noturna obrigando-os a ficarem juntos, abraçados. Conversando sobre tudo e nada. Layne Staley não era para ter morrido. Não, não era. Shannon Hoon também se entregou às drogas, não era para ter morrido tão cedo. Não, não era. Música, livros, comida, sexo, grapete repete grapete sempre, coca-cola um pouco, mais comida, mais música. Jeff Buckley se matou ou foi acidente? Não sei. De qualquer maneira, também não era pra ter morrido. Não, não era. Poucos beijos, sempre poucos beijos. Todos significantes, todos gravados no consciente, na memória, no para sempre. Muitos abraços e carinhos. Muitos defeitos, tanto dela quanto dele. Agonia e impaciência sempre. Briga? Nunca. Amizade. Talvez por isso não tenha dado certo. Amizade, acima de tudo e graças a Deus. As lágrimas pingavam do seu queixo, caindo nas suas coxas, molhando sua pele, protegendo sua alma, assegurando que estava tudo bem. Sim, estava tudo bem. Estava triste, um pouco só, muito só, não por muito tempo. Nunca por muito tempo. Triste porque havia durado tão pouco. Lembrava das coisas chatas que ela amava. Aquela barba que ele insistia em deixar crescer. Aquelas roupas desleixadas, sempre parecia que tinha acabado de acordar. Exceto pelo cheiro do desodorante, aquele cheiro fresco, gostoso. Sentiria faltas daquele desodorante, também dos poucos beijos e do jeito como ele sempre acreditava que estava certo. Saudades daquela risada irônica. Ironia sempre; sarcasmo, com cuidado. Poucos maus momentos. Muito poucos. Quase nenhum. Bons tempos, ótimos tempos, muita alegria, satisfação e felicidade e sempre a certeza de que iria logo acabar. E acabou. As lágrimas já estão secando. Como foi rápido. Foram boas lágrimas. O tipo de choro que alivia, que faz bem. Lava a alma, o coração, o corpo. Foi um choro, de certa forma, feliz. Não havia rancor, decepção, raiva. Nada, nunca houve. Um sorriso leve acompanhava o choro. Talvez agradecendo por tudo, pelos dias, pelos meses, pelas paranóias. Tudo foi bom, tudo teve uma importância, tudo deixo um marco. Isso, um marco. Foram meses que ficarão marcados para sempre, serão lembrados sempre. Estava acabando. Passou a mão no rosto para enxugá-lo. Olhou para a mão molhada e a lambeu com a ponta da língua. Era um gosto salgado, porém gostoso. Lambeu novamente. Não iria ser fácil. O fim de uma boa fase nem sempre é boa. Nunca se sabe como será a próxima, quem será o próximo. Haverá um próximo? Provavelmente. Talvez. Espera que sim. I want someone badly... to burn in here with me. A música faz mais lágrimas descerem, mas lágrimas boas. Um sentimento bom, gostoso. Algo maravilhoso aconteceu, algo maravilhoso terminou. Algo maravilhoso sempre encravado no coração. Sempre assim. Um adeus imaginado. Um tchau silencioso. Fechou os olhos e adormeceu. Sonhou que estava voando, com medo de cair, mas, apesar de tudo, ainda estava feliz.
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[Quinta-feira, Março 02, 2006]
Benditas Sextas
Toda sexta-feira à noite eu era o próprio inferno: queimando, derretendo lágrimas por você, pensando nos bares que freqüentamos, nos chopes que tomamos, nas risadas, no boca-a-boca em público, em particular, no chororô bêbado que dávamos juntos enquanto derrubávamos mais uma cerveja. E você me agüentava e eu te suportava e queríamos nos bater e éramos inseparáveis. Depois de tudo tudo tudo eu ainda te ligava nas benditas sextas. Até que um dia você cansou, desistiu, não agüentou e deixou de atender a meus telefonemas. E mesmo assim eu sempre inventava, comprava, pegava emprestado algum outro telefone para te ligar, mas aí não tinha mais jeito. Você já sabia que quando seu telefone tocasse seria eu desesperada ligando, eu desesperada, eu desamparada, eu, Deus e nada te ligando, te lembrando, te beijando nos meus pensamentos, te iluminando no meu sofrimento e até as grosserias e os "eu-te-odeio"s eu amava. E chorava. Eram rios de lágrimas, mas nas sextas-feiras, nas benditas sextas-feiras eu ainda me crucificava só para ouvir o seu "alô".
Até que um dia me peguei sorrindo, sem saber por que. E sorri feito uma boba o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro. Não sabia o que era aquilo, sorria e ria e contava piadas e ligava para amigos e não fazia a mínima por que. Até que perguntaram por você. E o incrível foi... eu simplesmente não sabia, não tinha idéia de você. A verdade é que eu passara o primeiro dia em 3 anos sem pensar em você. Nem seu rosto, nem seu nome, nem seu sexo, nem seu toque e é como diziam: a ficha caiu. Mas, dizer que a ficha caiu era pouco, pois não foi só uma, foram várias, foram centenas, milhares, milhões de fichas caindo, eu caindo para fora do meu abismo e foi uma semana inteira de fichas e sorrisos bobos e os lindos comentários: "nossa, como você está radiante!" e de repente meu coração voltou a bater, voltou a viver e eu não te amava mais, amava outro alguém. Alguém que merecia, como sempre mereceu. Alguém que precisava e sempre precisou do meu amor. Sim, amava alguém. Finalmente, pela primeira vez e para o resto da vida, amava a mim mesma.
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[Domingo, Fevereiro 12, 2006]
Faísca
a chuva que bate na janela
a água que derrama como lágrimas
leva embora o mal, a angústia
leva embora a tristeza, a minha renúncia
o choro que calou
um pingo assustou
e a chuva continua
calada em seu trovão
falando em seu relâmpago
e me escuta e me aconselha
e leva embora tudo o que me rodeia
deixando apenas um arrepio
uma calma envolvente espanta o frio
uma faísca de esperança ofusca o lado sombrio
e a chuva vira essência
a própria face da felicidade
e enquanto as nuvens se desfazem
uma última lágrima cai enquanto a chuva parte
e quando acaba o desespero
abre-se o caminho para a era da saudade.
por Lalá Fernandes * 10:59 PM
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[Sábado, Fevereiro 04, 2006]
Este texto poderá causar indignação em algumas pessoas. Somos todos adultos e conscientes de que cada um tem um modo de pensar e a cabeça aberta para coisas diversas. Cabe a cada um respeitar a mentalidade do próximo para, assim, ser respeitado.
O Direito de Escolher...
"Mary got pregnant from a kid named Tommy who said he was in love
He said don't worry about a thing baby I'm the man you've been dreaming of
Well three months later he said he wouldn't date her or return her calls
And she swear God damn if I find that man I'm cutting of his balls
Then she heads for the clinic and she gets some static walking through the door
They call her a killer, they call her a sinner, they call her a whore
God forbid you ever had to walk a mile in her shoes
Cuz then you really might know what it's like to have to choose. "
(What It's Like - Everlast)
Escolhemos nossos presidentes. Escolhemos nosso emprego, nossa casa, nosso marido. Escolhemos se podemos comprar armas ou não. Escolhemos o nosso governo e apoiamos as decisões que eles tomam. Escolhemos a pena de morte.
Assistimos a assassinatos todos os dias na televisão e ficamos de boca fechada. Assistimos às guerras que acontecem no dia-a-dia e achamos normal. Pessoas inocentes morrem todo dia por causa dos líderes que nós escolhemos. Nós escolhemos a morte. Nós escolhemos quem mandará em nós. Escolhemos quem cuidará de nós, quem nos vigiará. Submetemos-nos às leis que nos são apresentadas, aceitamos as condições de vida que nos são impostas. Aceitamos que nos digam como devemos viver.
Afinal, o que é livre-arbítrio? É o poder de escolha, de ir e voltar, de fazer aquilo que nós achamos correto e necessário. É aquilo que nasce com o ser humano e rege sua vida, aquilo que ele tem de mais poderoso: sua liberdade.
E o que é democracia? É o poder nas mãos do povo. A democracia dá ao cidadão a oportunidade de escolher aquilo que melhor servirá o país, a sociedade. E, no entanto, vivemos num estado de repressão, e não de democracia. Nós não temos direitos, e sim, concessões. Nós não temos opção, não temos o direito de reclamar, de escolher o nosso futuro. Não temos o direito de escolher nossa vida. Esquecemos o que é ética, o que é moral.
Reflitam: nós somos obrigados a escolher quem mandará em nós, mas não temos o direito de escolher em quem nós mandaremos. Onde está a democracia nisso? Onde está o livre-arbítrio? Se o país está coberto de sujeira política, é culpa do povo que escolheu o presidente corrupto. Se o índice de criminalidade está alto, é culpa da sociedade que incita a violência. Se o país está em decadência, é o povo brasileiro que não cuida de sua pátria. Tudo que acontece no Brasil, é culpa do brasileiro. Porque nós somos obrigados a arcar com as conseqüências de todos os atos do governo. Nós somos, ao mesmo tempo, os culpados e as vítimas.
Então, já não basta ter de servimos de marionetes para o governo? Nem da nossa própria vida podemos cuidar? Não podemos mais escolher como queremos viver? A mulher não tem mais o direito de escolher o que é melhor para ela? Num país onde não há segurança, não há emprego, não há economia, não há governo justo, não há paz, não há certezas, não há garantias de futuro, não há saúde, não há educação, não há opção, a mulher ainda é obrigada a carregar o fardo de um filho indesejado para o resto da vida porque até neste assunto o governo se sente no direito de intervir.
Um filho é uma bênção quando ele é concebido numa família estável, quando ele é desejado, quando a mãe tem condições de criá-lo, de dar para ele uma boa vida. Quando todos os elementos sociais, econômicos, políticos e psicológicos estão a favor desta gestação. Então, chega de argumentos pitorescos, não vamos cair na pieguice. Não vamos falar de uma adolescente que poderia perder sua infância, ou de uma família destruída por causa de uma gravidez indesejada. Esses argumentos já estão gastos e já não fazem o mesmo efeito. Todos nós sabemos que uma gravidez indesejada pode acabar com a vida de uma mãe despreparada e sem recursos. Uma vida sofrida não é vida, é punição, tanto para a mãe quanto para o filho.
Digo apenas isso: "SIM" ao aborto, porque nós somos subordinados apenas como cidadãos. Como seres humanos, nós somos livres para escolher o nosso futuro e a hora certa de criar uma família. Nós temos sim direito de escolher se queremos ter filhos ou não. E não existe religião, governo, pai ou mãe que possam tirar esse nosso direito.
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[Quarta-feira, Janeiro 25, 2006]
Preciso de alguém que precise de mim...
Eu preciso de alguém que precise de mim. Que sinta falta do meu suspiro, do meu abraço. Que sinta saudades quando não estiver comigo. Que necessite o ar que eu respiro, o brilho dos meus olhos. Preciso de alguém que precise do meu cheiro, dos meus gestos, das minhas caretas e meus sorrisos. Preciso de alguém que só esteja completo quando estiver comigo.
Preciso de alguém que precise da minha presença. Que não olhe para o passado, nem para o futuro. Que olhe apenas para mim e perceba que aquele único momento pode ser o nirvana de uma vida. Preciso que essa pessoa me ame, me queira, me faça sentir mulher, me faça sentir bem, me faça sentir. Preciso de alguém que me faça sorrir. Alguém que não tenha medo de chorar, de brigar, de amar e ser amado. Preciso de um homem que fique sempre ao meu lado. Preciso sentir sua pele, sentir seu gosto, sentir suas mãos nas minhas, seus cabelos emaranhados dos meus. Preciso de um homem que seja meu deus.
Preciso de alguém que precise da minha alma. Cuja agonia eu posso curar com minha calma, cuja lágrima eu possa apagar com o meu toque, com meu olhar. Preciso de alguém para que eu seja seu mar, seu amparo; sua alegria, almas em sintonia; ser seu pássaro raro. Preciso ser seu verão, sua primavera, ser seu chão, ai! quem me dera. Preciso compartilhar minha imaginação, contar meus contos e meu causos, meus cantos e meus prantos. Mostrar o quanto sou amável, o quanto sou frágil. O quanto sou forte, sim, sou um forte, uma fortaleza, uma realeza. Sou um pouco de tudo e muito de nada, mas o bastante de algo para fazer a diferença na vida desse alguém. Preciso de um homem que me leve além, até o impossível, até o inconcebível. Preciso de uma vida imprevisível, um homem forte, um homem fraco, um homem que me admire e me respeite. Preciso de um homem que chore nos meus ombros e que enxugue minhas lágrimas, que sorria e me faça sorrir, que ria das minhas graças, das minhas seriedades. Preciso de um homem que ature minhas verdades.
Preciso de alguém que precise de mim. Das minhas inconstâncias, das minhas inquietudes, das minhas felicidades extremas e nervosismos agonizantes. Preciso de um homem que precise da minha sensualidade, que necessite o meu corpo, os meus beijos, meus cabelos, minhas mãos, meus pés, meus olhos e minha cintura. Preciso de alguém que aproveite essa fartura. Um homem que aceite meus defeitos, meus conceitos, minhas dúvidas, minhas loucuras, minhas gargalhadas estridentes, meu orgulho resistente, minha amizade, minha insanidade, meu humor insuportável, minha doçura infantil, minha preguiça tão senil. Preciso de alguém que aceite o meu coração, que me leve sempre a sério e não me leve sempre a sério, que faça rir sempre e ria mesmo quando minhas piadas forem sem graça. Preciso de um homem assim, sempre perto de mim, que me faça sentir a vida como ela é, ver o mundo com outros olhos, que me faça acordar toda manhã com um alívio no peito, preciso desse sujeito, preciso desse alguém.
Mas, talvez eu não precise de alguém que precise de mim. Talvez eu só necessite de mim mesma. Sem buscas, sem pesquisas, sem conquistas. Sem sonhos de um amor eterno, sem dúvidas sobre o amor verdadeiro, sobre o homem perfeito. Talvez eu não precise procurar alguém que precise de mim. Talvez seja eu que precise de alguém. Alguém que me ame, me envolva com seu ar, que seja meu mar, minha ilha, minha sina. Preciso de um homem só, preciso de um homem e só. Eu não preciso de alguém que precise de mim, da minha vida, do meu amor, da minha consciência. Pois, desse jeito, não existe ninguém. Para falar a verdade, não preciso dessa pessoa que precise de mim, apenas preciso de um alguém.
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[Domingo, Janeiro 01, 2006]
Nos sinais, nos canteiros, nas esquinas...
A realidade cruel da desigualdade social e da miséria, no Brasil, não está limitada à vida nas favelas. Pelo contrário, embora, nestas, seja possível enumerar todas as incongruências que firmam a precariedade da sociedade brasileira e a permanência do país na categoria de terceiro mundo, também é possível observar o esforço e a determinação de muitas pessoas para que possam melhorar seu estilo de vida e crescer profissionalmente e culturalmente, na medida em que lhes for possível.
Deste modo, percebe-se a existência de duas realidades que se opõem rigidamente nas favelas e seu contraste, às vezes, passa despercebido pela população em geral, que se determina em julgá-las como sendo uma só. Por um lado, tem-se o homem e a mulher, ambos trabalhadores duros que passam a maior parte de suas vidas lutando para conseguir dar algo de valor para seus filhos; por outro, existem aqueles que simplesmente aceitam sua realidade como sendo concreta e imutável. Ou seja, desistem de procurar empregos, vivem do dinheiro dos outros e suas vidas diárias se resumem à conversa com o vizinho ou uma "Kaiser" na mercearia.
Embora nada seja mais degradante do que, a caminho do trabalho, às 2h da tarde em plena segunda-feira, passar por um "buteco" e perceber que este está lotado de desocupados tomando cerveja como se fosse sexta à noite, ainda existe algo mais reprovável que está, cada vez mais, se tornando uma inconveniência e (mais) uma vergonha para o Brasil: o crescente número de pessoas pedindo esmola nas ruas. Hoje em dia, pedir esmola virou um tipo de "emprego alternativo". À cada dia, mais e mais pessoas se reúnem em esquinas e sinais para pedir esmola. Como se já não bastasse o fato de estarem lá pedindo dinheiro, ainda levam seus filhos (ou filhos dos outros, como acontece) para criar um sentimento de pena nas pessoas que passam de carro. O que é ainda mais abominável. A que ponto iremos chegar, assim?
Muitos se perguntam por que, de repente, o número de "esmoles" aumentou tão rapidamente e por que, a cada dia, mais e mais pessoas se involvem neste retrocesso. Por que? Pergunte-se: em uma semana, quantas vezes você dá umas moedinhas para um menino de rua, de dentro do seu carro? Ah... Mas tem gente que não dá esmola. Tudo bem. E para o sujeito que guarda seu carro quando você estaciona em algum lugar? Todo mundo colabora, de algum jeito. Quanto mais crianças vemos nas esquinas, mais pena temos, quanto mais pena temos, mais decidimos dar algum troco para as mães, e quanto mais dinheiro as mães conseguem arrecadar, mais crianças elas levam para ajudar na tarefa. É um ciclo infinito que só acabará com a total erradicação das crianças e adultos nas ruas e a proibição, por lei, de permanência dos mesmos nos sinais, nos canteiros e nas esquinas. De uma maneira mais poética, quando deixarmos de utilizar o termo "menino de rua" e passar a dizer, apenas, "menino".
Já foram feitas inúmeras pesquisas destinadas a descobrir por que é mais viável pedir dinheiro do que procurar um emprego, por mais que o salário seja justo. Todos já viram ou ouviram falar de um e-mail que esteve circulando o Brasil inteiro, nestes últimos 2 anos, esquematizando como funciona a vida financeira de um "pastorador" de carros. Segundo as contas feitas pelo autor do e-mail, um "pastorador" de carro arrecada, no final do mês, em torno de mil reais. Analisando a fundo a estrutura da profissão que este exerce, percebemos alguns aspectos interessantes e absurdos. Primeiro, o "pastorador" pode ser considerado um funcionário público-independente, já que presta serviços à toda população e não está vinculado a qualquer instituição privada (nem pública, na verdade). Segundo, faz de qualquer vaga em uma rua seu local de trabalho, ou seja, algo que é de domínio público, passa a ser posse do "pastorador" que aluga, por certo tempo, tal vaga à motoristas em troca de algumas moedas. Por fim, terceiro e mais absurdo, a invasão de estacionamentos privados, onde também estão se cobrando "gorjetas" em troca de "uma olhadinha aê, patrão".
A maior desgraça é que, se quisermos manter nossos carros livres de arranhões e pneus furados, temos que aceitar de bico fechado.
No caso dos pedidos de esmola nas esquinas, o padrão é basicamente o mesmo. As pessoas que andam de carro (ou moto e afins) já estão tão acostumadas a dar um trocado para o menino ou o velhinho da esquina, que não percebem que estes sempre voltam pelo simples fato de que sabem que vão ganhar. Isto, além de apenas encorajar mais pessoas à se aglomerarem nas ruas, é injusto com as crianças. Todas as crianças têm o direito à comida, casa, educação e, também, a dormir. Cito isso, pois já fui abordada por três crianças, nenhuma mais que 11 anos de idade, em um sinal, às 11h da noite, acompanhadas de sua mãe grávida carregando um bebê nos braços. Foi o ultimato necessário para confirmar meu único dogma: não dar esmolas. Afinal, o que levaria uma mãe, grávida, a levar seus filhos (inclusive seu bebê) a pedir dinheiro até tarde da noite, se ela já não soubesse, por experiência, que arrecadaria um bom montante? Não me preocupo com os adultos que pedem dinheiro. A maioria destes já se habituaram a este tipo de vida e provavelmente jamais irão procurar algum emprego. Já estão totalmente entregues à vida fácil de pedir dinheiro. No entanto, poderiam poupar seus filhos. Se não têm ou sabem o que os ensinar, que os mandem para a escola para que possam pelo menos se alfabetizar. Às crianças devia ser garantido todos os direitos que o estado alega terem, inclusive, o direito à infância e à juventude.
Quem não está cansado de toda esta realidade? O que podemos fazer para acabar com tudo isso? A qual político devemos clamar? A qual entidade, qual instituição? Não adianta. Nenhuma irá acabar com estes problemas. O governo está muito ocupado com as preparações para viagens internacionais e compras de bebidas alcoólicas para o Presidente da República e as entidades privadas só apóiam causas que lhe tragam algum benefício financeiro direto. E, já que não há empregos o bastante para todos, é bom que fiquem pedindo, por enquanto. É mais conveniente para o Presidente.
Ou seja, por enquanto, não há solução e, já que não há para onde correr, continuarei a seguir rigidamente meu dogma (e aconselho a todos a fazerem o mesmo):
NÃO DÊ ESMOLA!
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[Sexta-feira, Outubro 28, 2005]
Não me chame de mulher..
Não me chame de mulher, pois não irei acreditar. Não tenho tanta confiança, não sou tão madura, não cresci o bastante, ainda sou muito cabeça dura. Não sei medir consequências, com nada me envolvo ou me empenho, então não me chame de mulher, porque de mulher eu nada tenho.
Não me chame de mulher, senão poderei chorar. Pois ainda sou uma criança, faço tudo errado e nunca procuro aprender. Não trabalho e nem quero, não estudo e nem me esforço, não procuro experiências, mas tenho toda a sciência de que um dia precisarei começar. Meu dinheiro não tem bolso, ele voa sem me consultar, não sei economizar, não sei nem o que é não gastar. Meu bolso não tem dinheiro, porque não tem tempo de se assentar, sai direto das mãos de quem me dá para àquilo que vou comprar. Então não me chame de mulher, porque se eu fosse mulher, é você quem iria me sustentar.
Não me chame de mulher, pois de mulher não tenho nada. Mulher de verdade batalha, mulher de verdade é guerreira. Eu fujo de todas as guerras, evito todas as barreiras. Prefiro ficar sentada, prefiro ficar parada, prefiro não fazer absolutamente nada... do que ter que suar para atravessar grandes fronteiras. Se tenho sonhos, não realizo. Se tenho direitos, não reivindico. Se tenho regalias, não preciso. Ou tenho preguiça de precisar. Tenho preguiça de aceitar. Até mesmo tudo aquilo que recebo de mão beijadas, de mãos amadas, até mesmo tudo aquilo que, para receber, não tive que levantar um dedo, não tiver que pedir, não tive que fazer nada.
Não me chame de mulher, pois a mulher é minha rival. Mulher verdadeira é sensual, é sedutora, mulher de verdade é quem manda, é quem obriga, é mulher que faz homem sofrer. Mulher de verdade é quem implica, quem argumenta, mulher de verdade é ciumenta, mulher que homem nenhum aguenta, mas não deixa de querer. E eu não sei andar mulher, não sei falar mulher, não sei agir mulher, paquero como menina, rio como menina, ajo como menina, sou rude, grude, me chute, porque não sou mulher fina.
Não me chame de mulher, senão poderia virar uma de repente. Pois mulher também pode ser inconsequente, mas mulher de verdade é independente, e isso eu nunca irei ser. Pois preciso de cuidado, preciso de ajuda, sou mimada, sou chata e abusada e fico mais ainda quando ninguem me escuta. E ninguém nunca me escuta, ninguém nunca me entende, não acreditam que sou interessante, culta e inteligente. Sou boba para todos, sou louca para outros. Para mim, sou apenas menina, apenas jovem, apenas cheia de coisas para falar, e no dia que um homem me escutar, vou segurá-lo até o fim, pois se depender de mim, esse homem eu nunca irei deixar.
Não me chame de mulher, senão irei me apaixonar. Pois tenho medo de ser mulher, tenho medo de crescer mulher, tenho medo de não mais poder rir, não mais poder chorar. Mulher de verdade é sensata, sabe quando tudo deve ser, já eu nunca decoro datas, não sei cozinhar nada, ou costurar nada, só sei que um dia tudo acaba, um dia vou desaparecer. E se você por acaso me chamar de mulher, eu poderei até gostar e tudo isso que eu não sou, irei virar e o meu medo é de nunca mais poder voltar.
Então, não me chame de mulher, pois sei que um dia eu chego lá. Um dia serei responsável, uma esposa organizada, mãe boa e amável. Um dia terei meu emprego, chegarei em casa sempre cedo, lavarei a louça, terei dinheiro sempre na bolsa, criancinhas pequenas para ninar, uma família para cuidar. Um dia irei conseguir tudo que sempre quis ter, serei a mulher que toda menina gostaria de ser, serei um exemplo, terei sempre tempo, para viver, para sonhar, para realizar. Serei tudo que você queria encontrar. Mas não serei mais uma menininha. Não falarei mais besteiras, não cometerei irresponsabilidades inocentes, não chorarei nos seus ombros, ou te ligarei de madrugada procurando consolo. Não te mandarei presentinhos, não sentirei mais saudades suas, não terei necessidade de te procurar em todas as esquinas, todas as avenidas todas as ruas. Não te darei mais sorrisos à toa, não farei mais brincadeiras bobas, não te ligarei mais todas as noites, nem procurarei te ver em cada brecha do meu tempo, não serei mais seu passatempo. Não serei mais a sua protegida, sua menina querida, seu bebê.
Então não me chame de mulher, pois um dia eu chegarei lá. Por enquanto, aproveita que sou criança, com todas os meus defeitos que um dia você irá lembrar com saudades. Aproveita que você me domina, que eu necessito de você, que você me alucina. Não espere que eu seja mulher de verdade, me queira agora, me ame agora, pois não serei para sempre, mas por enquanto, serei só sua, sua menina.
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[Terça-feira, Outubro 11, 2005]
Rockabye Angel
Larissa Fernandes
(verse)
In a far away place
Where the clouds are always dark
She walks around the room
With her hand around her heart
She sits on the stairs
Screams that life isn't fair
She dreams of someone who will take her away
She's digging deeper in this hole
She lost all her self-control
She needs someone to know her name
(bridge)
Where will this go
Where will this take her
If she can't be alone
And she's afraid of the unknow
She'll need someone to bring her home
(chorus)
Oohhhh
And if she falls from herself during the night
Who will be there to save all of her dreams
And if she cries and the tears that fall hurt her eyes
Who will be there to wipe away all the sadness that she weeps
Someone please rock this angel to sleep
(verse 2)
She searches through the TV
Looking for some peace of mind
The pills and the bottles
Keep her company through the night
She didn't mean to sink this low
There were so many things she didn't know
She was following an invisible road
She didn't want to lead this life
But she didn't realize
Until she found out she was loving a ghost
(bridge 2)
When will this end
When will she breath again
So many things that she's afraid of
She needs someone to save her
Before she looses all her wings forever
(chorus)
(bridge 3)
And the moment that she falls
She finally sees it all
All her mistakes are taken away
And as she flies back to the sky
She can hardly wave goodbye
Because she knows she will never fall again...
(chorus)
Música que escrevi hoje... Vou colocar o vídeo no videolog depois...
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[Sábado, Setembro 24, 2005]
Estou sem tempo de escrever. Portanto, estou re-postando esse texto.
Sou eu, simplesmente eu...
Sou eu que erro, eu que peco, eu que nego todos os meus erros, que aceito todos os meus medos, que erro novamente sempre como se pela primeira vez.
Sou eu que falo demais, que rio demais, que choro demais, que vivo em euforia, que sou dura crua e fria, que sempre calo ante o que mais angustia.
Sou eu que ouço muito e pouco digo, esqueço-me de mim mesma e só me lembro da solidão, sou eu que procuro amparo em ombros errados e sou eu quem peco por pecar em vão.
Sou eu que ando em linha descontínua, que rezo todo dia para nenhum Deus em particular, sou eu que prezo alguma vida, sou eu que sempre custo a me abençoar.
Sou eu que vicio em tudo, eu que sempre gosto e aceito tudo, eu que não odeio nada nem ninguém, sou eu que fumo e bebo, penso esclareço, rezo, vivo, morro, sou um berço, e bem sem jeito, resnaço, me refaço.
Sou eu que reconheço todo o meu caráter, minha irresponsabilidade, minha irreverência, sou eu que me orgulho da minha complexidade, da minha própria complicação, da minha extrema alegria, da minha aflição.
Sou eu que nunca me acostumo com o dia-a-dia, que detesto rotina e evito prazos, sou eu que prefiro um simples gesto de carinho do que o presente mais caro.
Sou eu que causo perturbação por ser tão eu, sou eu que inspiro desconfiança e desprezo por ser tão somente eu, sou eu que não ligo, me desligo, me reviro só, sou que saio, desmaio, caio só e me levanto mais só ainda.
Sou eu que não quero elogios nem críticas, sou eu que não aguento mais a corrupção pessoal, a exclusão social, a exploração braçal, a rejeição mental, ao desapego cultural, ao nível tão cordial, a formação de elites do poder.
Sou eu que não entendo democracia, capitalismo, governo, fome, eu que critico, desminto, reivindico meus direitos se ser simplesmente eu.
Sou eu que não irei jamais mudar, sou eu que sempre continuarei assim, deste jeito, complexa, difícil e complicada, eu, simplesmente eu.
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[Quinta-feira, Setembro 08, 2005]
All The Things I Never Knew
(Larissa Fernandes)
I really like it when you say
That everything is not okay
Feels like we're raising our stakes
And I like it when you say I'm sorry
It makes me feel like I'm not the only
Person here who makes mistakes
- Why do you still keep me around after you've heard
All the things I said about you before
I never meant to say it
I'm so sorry that I said it
- How do you bear to hold me so close
I never meant to hurt you and you know
I never meant to say it
I'm so sorry that I said it
I really like it when you cry
It makes me realize that I
Was so wrong about your heart
And when you pull me just a bit closer
I feel our love it isn't over
Can't even imagine us apart
(Refrão)
I'm sorry about everything I said to you before
I never thought Id be this wrong after so long
I promisse that I will never hurt you again
You just have to give me one more chance..
Just give me one more chance...
(Refrão)
(Essa música é registrada, nada de copiar)
Quando minha voz tiver boa, faço a gravação pra quem quiser, poder escutar...
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[Quinta-feira, Agosto 18, 2005]
Tudo o que eu quero na vida
Tudo o que eu quero na vida é respirar o ar fresco da praia
Caminhar com os pés na areia molhada e sentir o frescor da água
Quero me molhar sem sentir medo, deixar o vento me abraçar
Quero ouvir o barulho das ondas e descobrir os mistérios do mar
Tudo o que eu quero na vida é não ter medo de errar
Saber que todos cometem erros e que a vida nos ensina a os consertar
Quero aprender por experiência, deixar tudo me acontecer
Sempre encarar o mundo com a bagagem ilimitada do saber
Tudo o que eu quero na vida é saber ficar só
Saber que o meu mundo não é o dos outros, que a solidão não é o pior
Quero poder ficar sozinha nas minhas reflexões e meus pensamentos
E saber que todos ainda estarão lá, sou eu que escolho o meu momento
Tudo o que eu quero na vida é saber o que é o amor
Será possível que ninguém reconheça o seu verdadeiro valor?
A paixão em um namoro, a fidelidade em um casamento
A felicidade nos rostos dos filhos, a velhice que chega com o tempo
Tudo o que eu quero na vida é sorrir em todos os momentos certos
Os maus momentos passam, os felizes estão sempre por perto
Jamais deixarei a tristeza me controlar
Pois não existe nada mais infeliz do que um coração a chorar
Tudo o que eu quero na vida é ver a justiça neste país vencer
Que as crianças possam ir a escola, que tenham sempre o que comer
Quer possam brincar nas ruas sem medo, que a esmola deixe de existir
Que todos tenham um emprego, que tenham finalmente um motivo para sorrir
Tudo o que eu quero na vida é a paz para todo o mundo
Que as pessoas comecem a perceber que a violência não é o futuro
Pra que balas e armas e bombas e guerras?
Matamos nossos cidadãos, nossos irmãos e continuamos nas trevas
Tudo o que eu quero na vida é ter uma casa e um jardim
Um marido, um filho, um emprego, uma família só pra mim
Sem complicações, sem exageros, sem desespero por dinheiro
O amor e a ternura são eternos, o material é passageiro
Tudo o que eu quero na vida é ter um motivo para viver
Se tudo isso já não basta, o que mais posso querer?
Não peço demais, não peço o bastante
Como seria o mundo, se fosse assim por apenas um instante?
Tudo o que eu quero da vida é ela mesma e nada mais
As experiências e as tristezas, e tudo mais que ela nos traz
Não quero ter uma vida perfeita, não quero só felicidade e prazer
Se todos na vida têm um propósito, o meu eu quero saber
Na verdade, eu não quero nada da vida.
Eu só quero mesmo viver.
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[Sexta-feira, Agosto 05, 2005]
Se eu fosse você...
Se eu fosse você, não casaria comigo.
Fugiria da dificuldade do matrimônio, das brigas, dos argumentos. Fugiria das noites mórbidas onde deitaríamos um ao lado do outro sem saber o que dizer. Fugiria do cotidiano, da rotina, do dia-a-dia. Fugiria de mim.
Sendo quem eu sou, sei que não aguentaríamos. Iríamos nos destruir antes de completar um ano. Eu iria te enlouquecer com minha loucura, minha excentricidade, meu outro eu. Iria te afastar de mim por você ser tão diferente. Iria te crucificar por ser tão chato, monótono, usual, previsível. Iria te desconsiderar, "take you for granted".
Se eu fosse você, não casaria comigo.
Talvez porque seja melhor que você não me conheça por inteiro. Você correria o risco de me abandonar. Descobriria que eu gosto de dormir de rede, que gosto de pão francês com banana machucada, que assisto o canal italiano mesmo sem entender nada, que eu estou sempre viciada em algo diferente. Você enlouqueceria porque jamais saberia o que me dar de presente. Me daria equipamento de som para meu violão e no dia seguinte estaria eu aprendendo a tocar piano, me daria roupas para minhas corridas e no dia seguinte estaria eu fazendo natação, me daria livros em branco e canetas caras para escrever e no dia seguinte estaria eu aprendendo a pintar.
Porque eu sou assim, sempre em constante evolução. Ou seria mutação? Ou até involução?
Você não aguentaria minhas mudanças repentinas de humor. Estaria te fazendo carinho e no instante seguinte me levantaria e sairia do quarto. Nenhuma explicação, nada. Apenas minhas costas se afastando de você com determinação e até zombaria. Eu iria me aproveitar da sua ingenuidade, da sua doçura. Diria que ia sair e voltaria cedo, mas chegaria de madrugada. Diria que não beberia nada e chegaria melada. Diria que ia sair com amigas e você me avistaria arrodeada de homens. Você iria ter ciúmes.
Se eu fosse você, não casaria comigo.
Pois eu adoro ciúme, porém não sou ciumenta. Nada me importa se você se abraçar com toda e qualquer mulher que venha lhe cumprimentar, que você sempre repare nas mulheres bonitas ou que sempre compre a Playboy. Você estará comigo. E será só meu. Portanto, não teria do que duvidar.
Mas você... Você seria diferente. Você nunca conseguiria confiar em mim, mesmo que eu jamais lhe traísse. Você iria me seguir quando eu saísse, me faria um interrogatório quando chegasse em casa e duvidaria das minhas respostas. Me olharia feio quando eu saísse de mini-saia ou um vestido curto. Ficaria louco quando eu chegasse em casa descabelada. Acabaria por morrer de ciúmes. E eu, na verdade, jamais o trai. Mas atormentei sua imaginação e traição ou não traição, você estaria para sempre amaldiçoado pela dúvida e pela desconfiança. Acabaríamos aí.
Se eu fosse você, não casaria comigo.
Não aguentaria minhas inconstâncias, minhas risadas altas, meus choros estridentes, minha raiva crua, minha ironia, meu sarcasmo, meus sorrisos amarelos, minha sinceridade, minha crueldade. Você perguntaria se estava bonito e eu diria que não, se assim o achasse. Você perguntaria se eu gostara do presente e eu diria que não, se assim o achasse. Você terminaria desgostoso de mim. Teria raiva da minha presença e não suportaria o que eu falasse.
Você condenaria minha falta de pontualidade. Eu te faria esperar durante horas a fio, sem a mínima necessidade. Você criaria raiva da minha criancisse, da minha complexidade, minha infantilidade. Eu sou só para mim mesma. Não há ninguém mais. Você seria apenas uma pessoa na minha vida e nada mais. Eu te ignoraria, te chatearia, te iludiria. Tudo para o meu próprio entretenimento. Eu jamais pediria desculpas por algo, pois sou orgulhosa. E você nunca saberia o que eu penso e sinto, pois sou fechada. Não me abro. Nem mesmo para você. Minha complexidade carregaria você para longe de mim. Eu mesma seria a causa de tudo de ruim que nos acontecesse.
Se eu fosse você, não casaria comigo.
Eu te destruiria. Te acabaria. Quebraria todo o homem que há em você e você viraria criança. Uma criança chorando pelo meu colo. E eu, egoísta e má, deixaria você chorando, desesperado.
Se eu fosse você, não casaria comigo. Mas isto é apenas eu. Quem decide é você.
O que?
Você o que?
Você quer?
Mesmo assim?
Tem certeza?
Então, se é assim...
Esqueça tudo que eu falei. Cada palavra...
A verdade é que...
Eu também te amo.
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[Segunda-feira, Julho 25, 2005]
No dia em que eu morrer
No dia em que eu morrer não quero ninguém vestido de preto. Não quero um clima triste, trágico. Não quero ninguém de luto. Não quero ninguém comemorando a minha partida, e sim, a vida que vivi.
No dia em que eu morrer não quero choro de desepero. Não quero ninguém gritando que eu volte, implorando pra que eu respire novamente. Se parti, é porque tive que partir e minha ida será apenas o capítulo final da minha estória. E se toda estória tem um final, por que a minha haveria de ser diferente?
No dia em que eu morrer não quero ninguém perguntando a Deus por que motivo eu morri. Implorando aos céus uma resposta que não existe, exigindo o motivo da minha partida. Deus nos dá vida, a vida vem com a morte. Ninguém é culpado. Não há culpa, não há a quem acusar. Se alguém quiser falar com Deus, agradeça-O por eu ter vivido.
No dia em que eu morrer não quero reclamem por eu não ter vivido o bastante, não ter feito tudo o que planejara. Fiz muito. Fiz bastante. Fiz o que tinha que fazer. Respirei, falei, sorri, chorei, escrevi, brinquei, fiz de tudo um pouco. Enfim, vivi. Nem sempre terminamos tudo o que começamos e às vezes há motivo para isso. Quem sabe as melhores obras não sejam àquelas que nunca foram acabadas?
No dia em que eu morrer não quero que haja constrangimento. Pessoas comendo salgados em silêncio, com medo de falar algo. Pessoas chorando baixinho nos cantos com medo de falar algo insensível. Quero que todos conversem. Conversem alto, façam barulho, riem, chorem, lembrem do meu passado, do nosso passado. Lembrem das coisas bonitas que falei e das feias também. Das coisas bonitas que fiz e das feias também. Exaltem minha felicidade, minha alegria, cantem uma música, contem uma piada, falem besteira. Pois se vivi, terá sido uma vida feliz e isso deverá ser lembrado.
No dia em que eu morrer não quero um funeral silencioso. Todos com a cabeça baixa, coberta por um véu, escutando um padre que eu nunca conheci falar de uma vida que ele nunca conheceu. Quero que levem um violão, toquem músicas, toquem minhas músicas, toquem músicas dos outros. Quero que recitem uma poesia ou leiam uma estória. Quero me se despeçam de mim de uma maneira que eu possa levar para sempre comigo no leito da minha morte. Para o além, se existe além. Para o céu, se existe o céu. E se não houver nada, pelo menos nos últimos momentos da minha existência houve um pingo de alegria. Seja uma nota musical, um verso de um poema, poucas palavras recitadas.
No dia em que eu morrer não quero que leiam palavras prontas. Não digam que fui uma boa pessoa, que sempre ajudei os outros, que é uma pena que fui embora, etc. Falem o que sentem. Se não sentirem nada, não falem nada. Se tiverem milhões de coisas para dizer, então digam. Se fui uma pessoa sincera e aberta, que compartilhem seus pensamentos comigo com toda a sinceridade e abertura que eu usaria, caso estivesse viva. Falem pelo coração, pelas lágrimas, pelos sorrisos. Falem assim comigo.
No dia em que eu morrer não quero que falem de "e se" ou "se ela não tivesse.... tão cedo". Se parti, parti. Não há mais futuro para mim. Mas há um passado repleto de memórias que podem ser lembradas por todos sempre que sentirem minha falta. Não pensem no futuro que não vivi. Pois tive uma vida repleta de amigos, amores, família, alegria e não poderia pedir mais que isso.
Enfim, no dia em que eu morrer não chorem porque morri. Morri como as pessoas morrem, como as flores murcham, como o sol se põe, como se acaba um livro, como a última nota de uma sinfonia. E a verdade é que os últimos momentos de algo que viveu não é importante. Pois bonita é a flor quando está vibrante e colorida, é sol em todo seu esplendor no alto do céu de meio-dia, é uma estória fascinante que lemos, é uma música linda que desperta em nós emoções maravilhosas. Essas sim são as verdadeiras lembranças, isso sim é o que compõe o nosso legado. Então, peço-lhes mas uma vez. No dia em que morrer, não chorem porque morri, mas sorriam porque, acima de tudo, eu vivi.
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[Terça-feira, Julho 05, 2005]
A Rede...
Eu vi os seus olhos e eles me olhavam sempre, diretos, fitavam-me, e olharam-me durante horas e retribui os olhares sem pestanejar, quase não conseguia piscar e com o tempo já não podia olhar para os lados e os amigos logo notaram o itenso movimento do ar que havia entre nós e nos apresentaram e você era você e eu era eu e finalmente nos conhecemos e já nos conhecíamos há meses anos décadas séculos milênios e seu olhar parecia ter nascido comigo ou brotado dos meus sonhos e as primeiras palavras foram bobas, belas, boas demais para ser verdade, longas demais para terem acontecido no nosso primeiro encontro numa viagem qualquer para uma praia qualquer e talvez não tenha sido ao acaso que a trilha sonora foi perfeita durante a noite com o "deixa o menino jogar" e "cantar não deixa a alegria ir embora" e embora o embalo parecesse nunca acabar, os dias chegavam ao fim e três dias chegaram ao fim quando finalmente não conseguimos nos separar e juntos ficamos durante toda a manhã e inseparáveis ficamos por toda a tarde e a noite daquele terceiro dia foi infinita para nós, deitados naquela rede, dormindo e acordados e sonhando sempre e beijos apaixonados e risadas gostosas e eu lia a revista mais rápido mas esperava você terminar a página e nos chamavam para caminhar na beira do mar mas da rede víamos a Lua como se estivéssemos na primeira fila de um espetáculo só nosso e as estrelas sorriam para nós e nunca foram tão cadentes ou carentes e careciam de nós e nosso olhares e nossa atenção e naquela noite pertencemos às estrelas e à Lua e ao Sol que estava escondido e à uma outra galáxia ou outro Universo ou até à outra existência pois não há perfeição neste universo mas se um dia houve alguma perfeição foi este espetáculo que o céu encenou para nós, naquela rede naquela terceira noite e a noite parecia não acabar nunca e seu abraço era o mais caloroso e seu beijo o mais jeitoso e sua boca a mais macia e e seu olhar me socorria e eu me perdia naquela rede e me via em outro mundo e suas risadas foram meu céu e suas estórias foram meu ar e seus braços foram meu consolo e nos seus braços eu estava em casa e nos seus braços eu estava segura e nos seus braços eu estava feliz, sim, nos seus braços um dia eu fui feliz, mas a noite acaba acabando e as estrelas vão sumindo e a Lua vai submergindo e o sol vem ressurgindo e nossos olhos cansados acordaram finalmente daquele sonho maravilhoso e era hora de levantar e era hora de separar de desgrudar de largar e soltar as mãos e quase hora de ir embora daquela miragem da perfeição e do oásis daquela praia e voce pegou minha mão e me levou até a rede para um último beijo e nos sentamos e você me olhou com seus olhos de ouro de moleque de anjo, meu anjo e me abraçou e chorou uma lágrima e prometeu que me procuraria e me fez prometer atender suas ligações e fizemos milhares de promessas de encontros e beijos e paixões e milhares de outras felicidades e pouco antes de partirmos você sussurrou no meu ouvido: "com você, eu me apaixonaria em uma semana" e fechei meus olhos quando voce deu um último beijo na minha testa antes de sair do carro e desaparecer debaixo do sol de meio-dia.
Nunca conseguimos completar aquela semana, faltavam quatro dias para você se apaixonar por mim, mas o espetáculo universal que testemunhamos daquela rede na nossa terceira noite estará sempre dentro de nós, e quando não mais lembrar de mim olhe para o céu e verás nossa curta estória escrita nas estrelas.
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[Quinta-feira, Junho 30, 2005]
Filosofia de Boteco: Tico e Teco - Parte II
Diálogos De um Bêbado...
Bebum: Caros amigos... Eis aqui os maiores ícones da psicologia e filosofia contemporânea (hic!), os dois astros do desenho animado de Walt Disney que conquistaram os nossos corações ao nos fazer perceber suas semelhanças com a alma humana.
Amigo: É o que homi?
Amigo 2: É isso aí cara. Isso mesmo (hic). este, imediatamente após sua fala, desmaia sobre a mesa e ali permanece durante o resto da noite.
Bebum: Amigos, agucem seus ouvidos! Pois tentarei explicar agora o porquê da magnitude destes pequenos esquilos do cartoon.
Amigo: Ei, acabou a cerveja.. Alguém pede uma aí... Aliás... Uma, não. Pra escutar isso é melhor tomar umas três de uma vez só...
Bebum: Desde pequeno que eu...
Amigo: Eiiii.. Peraê rapá... Tu conhece o (hic!) código, pô. Só pode filosofar quando todo mundo tiver um copo cheio. O garçom logo chega com as três garrafas de cerveja Pronto... Agora pode continuar.
Bebum: Bom. Lá vai. Desde pequeno que eu assis...
Eu: Peraí, peraí!!!!
Bebum: O que foi agora (hic!)?
Eu: O churrasquinho ainda não chegou. Espera o churrasquinho...
Cinco minutos depois chega os 9 espetinhos e finalmente meu amigo pode começar seu monólogo...
Bebum: (hic!) Posso agora??
Eu: Pera... deixa eu ir ali no banheiro rapidinho...
Bebum: ...
Eu: É brincadeira... Pode.
Bebum: "Desde pequeno que eu assisto desenho animado". Nossa... Consegui concluir a frase. Bom, vamos lá. Mas só há alguns meses ou anos foi que comecei a perceber o quanto certos desenhos tem certa influência em nossa vida. O Tico e Teco são os exemplos perfeitos. Vamos analisar. Por um lado, temos o Tico, o ser mais racional, preciso, objetivo, a máquina pensante da dupla, o responsável, enfim, age como o lado esquerdo do nosso cérebro. Já Teco é o maluquinho, doido, brincalhão, emotivo, sensível, ariado, passional, afetivo. Neste caso, o lado direito do nosso cérebro. Sempre que assistia algum desenho animado com estes dois personagens ficava fascinado..
Amigo: Desde quando tu bebe assistindo desenho animado? (hic!)
Eu: Essa conversa me lembra um livro de Jane Austen..
Bebum: De quem homi?
Eu: Jane Aus... Ahhh! Esquece... O nome do livro é Razão e Sensibilidade.
Bebum: Mas é isso!! Isso mesmo! Razão e sensibilidade. Os dois opostos. Ying-Yang. Pólos negativos e pólos positivos...
Eu: Ta, ta... Entendemos... Continua...
Bebum: Bem... Eu sempre achei extremamente pertinente o uso destes dois seres fantasiosos para designar os supostos "dois neurônios" de certas pessoas. Afinal, em uma situação, ou se usa um ou o outro. Se faz alguma merda, normalmente usou o Teco, se faz algo certo, usou o Tico. Se num faz nada é porque os dois tão dormindo e por aí vai.
Amigo: É... pois é... Mas as cervejas já acabaram. Espera um pouco, ó mestre.
Eu: Eu vou aproveitar pra ir no banheiro de novo.
Bebum: Aiaiai...
Eu: Pronto, cheguei, aqui estão as cervejas. Continua, ó sábio!
Bebum: O que levou a pensar nisso agora foi o seu desenho, cara amiga. Nele, uma pessoa está falando algo quase incompreensível para um grupo de pessoas, enrolando conceitos, se contradizendo e ninguém entende absolutamente nada. Logo abaixo, há um pequeno desenho dos dois personagens fumando um "back", o que seria a suposta causa de sua pequena loucura. Isto é perfeito. É magnífico!
Eu: O que?
Bebum: O homem adulto está se infantilizando. Cada vez mais atribui às coisas infantis aspectos adultos, a fim de não perder esta conexão com a sua criança interior.
Amigo: Ãhn?
Bebum: Para simplificar a sua própria vida, o homem incorpora certos costumes infantis ao seu dia-a-dia. Deste modo, consegue resolver seus problemas de maneiras mais simples, falar com palavras e expressões infantis e fáceis e por aí vai. Acho incrível como um adolescente qualquer simplesmente despertou um dia para este aforismo do Tico e Teco. Parou, pensou, entendeu a semelhança com a mente humana e disse: é isso aí brother! Daí em diante, passou a utilizar esta expressão o tempo todo. Quantas vezes não nos pegamos dizendo algo do tipo: Tico e Teco não estão funcionando hoje... Ou então: acho que ta faltando dois esquilos na cabeça daquele cara! Minha gente, percebam! Vislumbrem! Isto é lindo! É poesia da melhor qualidade!
Eu: Ih.... A cerveja dele ta começando a fazer efeito...
Amigo: Nessas alturas do campeonato eu já tô até entendendo o que ele tá dizendo.
Bebum: Minha vida pode ser resumida com a ajuda destes dois animaizinhos! Por exemplo: Tico me fez entrar na universidade, Teco me fez reprovar todas as matérias e ser expulso no segundo ano, Tico me fez arranjar um emprego, Teco me fez namorar a filha da minha chefe e posteriormente passar um galho na mesma, Tico me faz zelar bem do meu carro, Teco coordena a direção quando estou bêbado e é o responsável pelas minhas últimas 5 batidas, Tico me ajuda a escolher roupas caras e bonitas para comprar, Teco me faz derramar cerveja, cana, mostarda e ketchup em todas elas e a lista é infinita. Bem... Era isso... O que vocês acham?
Amigo: Eu acho que Teco envenenou Tico e tomou conta do teu cérebro camarada. Quanto a mim... Acho que é Pato Donald controlando meu intelecto...
Eu: Tico me fez escolher sair de casa hoje para me divertir, Teco me obrigou a sentar aqui e ouvir essa baboseira madrugada adentro.
Amigo 2: acordando de um longo cochilo Uhn?? O que eu perdi? Sim cara, tu ia falar de Tico e Teco, ne? Pô, contai... Tô interessado.
Bebum: Ô coisa boa! Bem... "Desde pequeno que eu assis...."
Eu: Ai meu Deus! Ninguém merece!!
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[Sexta-feira, Junho 10, 2005]
Filosofia de Boteco: Tico e Teco - Parte I
Dizem que as conversas mais interessantes e produtivas entre amigos quase sempre ocorrem numa mesa de bar. Disse bar, mas talvez a terminologia correta para o "bar" ao qual me refiro seja, na verdade, "boteco". Vamos logo diferenciar os dois antes que se crie confusão em torno disso e eu tenha que me delongar demais neste ponto. Creio que a melhor maneira de se distinguir o bar do boteco seja pelo status. Como assim? Bem, o bar é mais requintado. Serve, na maioria das vezes, vários tipos de bebida de variados preços, como: whisky, cerveja, cachaça, vodka, tequila, rum, entre outros. Pode ter música ao vivo, naqueles mais finos, e música ambiente, nos mais desairosos. Seja qual for o caso, música é obrigatório. Já o boteco é mais informal. Sua estrutura varia entre algumas mesas e cadeiras dispostas na calçada até um arranjo parecido com o dos bares. Os melhores botecos, e isso é conhecimento popular, são aqueles que só servem cerveja. No entanto, a cachaça está adquirindo um espaço respeitado nos balcões dos botequins, ao lado da Skol, Bavária, Brahma, etc. Quanto à música, não é uma necessidade. Às vezes há um pagode ou forró ou qualquer estilo que caiba ao ambiente, mas não existe nada mais agradável do que aquele barulho alto, caótico, confuso da velha "conversa de botequim". Ali, os grupos de amigos se sentem à vontade para expor seus medos, suas paixões, seus chifres, seus segredos. Debatem sobre tudo. O mais impressionante, talvez, seja a evolução da inteligência e do pensamento de cada pessoa, na medida em que se vai esvaziando uma grade. O mais ignorante ser humano se torna num verdadeiro Einstein e é capaz de explicar minuciosamente para seus colegas as suas teorias sobre física quântica, pós-modernismo, niilismo, comunismo e os mais variados assuntos, sem jamais ter lido ou escutado algo a respeito dos mesmos. Um papo num boteco pode se tornar um verdadeiro berço para as mais geniais descobertas físicas, políticas e filosóficas.
Alguns já devem estar se perguntando: e onde entra Tico e Teco nessa estória?
Bom, foi justamente durante um animado papo em um boteco qualquer na capital norteriograndense que surgiu o assunto referente a esses dois queridos esquilos dos desenhos animados. Estávamos na quinta garrafa de Antártica (porque a Skol estava 20 centavos mais cara) quando um amigo, que estava sentado ao meu lado, levanta-se bruscamente para ir ao banheiro e derruba o meu caderno, que estava encima da mesa, à sua frente. Sem perceber, ele segue cambaleando em direção ao banheiro enquanto outro amigo nosso, que estava sentado do outro lado do que se levantou, me ajuda a juntar os papéis que se espalharam. Depois de amassar todos os papéis nos quais pusera a mão, ele joga o bolo todo no meu colo. No entanto, antes de voltar à sua cadeira, meu atencioso colega bêbado repara um desenho num dos papéis amassados. Era uma charge sobre uma pessoa conhecida de todos que estavam ali presentes. Havia uma pequena alusão à Tico e Teco como sendo os únicos neurônios que restavam no cérebro da pobre criatura vítima do desenho. Meu colega pôs-se a rir incontrolavelmente. O restante do grupo e eu acompanhamos a mudança do estado colérico de riso do nosso amigo à um profundo estado de meditação e análise do pequeno papel.
E foi aí que começou o diálogo. Embora fosse filosofia de boteco, foi tão sábio e envolvente, que seria digno de estar no livro Diálogos de Platão. Mas, creio que neste caso seria Diálogos de Um Bêbado. Quando cheguei em casa naquela madrugada, estava tão inspirada que decidi transcrever o diálogo (ou pelo menos o que eu me lembrava dele) para poder compartilhá-lo com o resto do mundo. Não alterei as falas, foram incluídos todos os deslizes gramaticais (e foram muitos), todas as pausas para soluços (esses foram mais ainda), todos os surtos de choro dos amigos bebuns emocionados e todos os demais ruídos de comunicação possíveis.
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[Segunda-feira, Junho 06, 2005]
Não Sou Poeta
De poeta nada tenho
De poesia tudo sou
Como um vulto discreto no mundo
Um olhar misterioso por trás de óculos escuros
Um ar expirado que projeta o amor.
Ser poeta é pra qualquer um
Que saiba sobre rimas e palavras
Poesia de verdade é como a água
Faz parte do corpo, do coração e da alma
Mistura-se com o fogo que queima da lava.
Sou poesia em tudo que faço
Desde o café que tomo de manhã
Às ondas que me carregam pelo mar
Até o mais leve toque e o mais poderoso olhar
Sou poesia filha, amiga e irmã.
Que não se queixem os poetas de verdade
Pois se não sou poeta por profissão, então por pura vaidade
O poeta é quem faz, poesia é quem ilumina
Por isso serei poesia até o fim da minha vida
E continuarei sendo em versos e lembranças por toda eternidade.
Larissa Fernandes não é poeta por profissão, é poesia em essência
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[Quarta-feira, Junho 01, 2005]
La Dolce Vitta...
E cada minuto, cada momento, cada instante é quase eterno, passa devagar...
Cuide Bem Do Seu Amor - Paralamas do Sucesso
Leva bilhões de anos para fazer um homem nascer, e apenas alguns segundos para que ele morra
Maya - Jostein Gaarder
Quantas horas de nossa vida desperdiçamos imaginando como ela poderia ser, ou poderia ter sido? Quantas minutos eternos em que nos lastimamos por algo ou nos arrependemos de algo foram entregues ao passado, de mãos beijadas e lavadas? Passamos horas, dias, meses, anos da nossa vida pensando demais no futuro ou sofrendo demais pelo passado e em apenas alguns segundos percebemos que jogamos a maior parte da nossa vida fora (parafraseando Jostein Gaarder).
A vida não é para ser vivida no passado. O passado deve ser lembrado sempre, louvado, venerado. Pode servir de lembrança, memória, ensinamento, conforto. Pode ser cheio de amor, glória, aprendizagem, amadurecimento, fracasso, tristeza, lágrimas e sorrisos. É imprescindível que jamais esqueçamos o passado, pois ele é parte de nós, está entrelaçado ao nosso sangue, nosso coração. Ele é a causa do presente e impulsiona o futuro. Mas não devemos confundir o passado com o presente. Nós nunca realmente percebemos a importância do "agora" até que o momento já tenha acabado. Por isso o passado é diferente, é mais marcante, mais forte. É como capítulos de um bom livro. Nós não podemos ficar sempre presos àqueles primeiros capítulos, ou àqueles que mais gostamos. Temos que seguir em frente, pois adiante poderemos nos deparar com novas aventuras, novos amores, novas amizades.
La dolce vitta é preciosa demais para que a deixemos passar como a água que sai da torneira. Ela precisa ser um rio para nós. Pois as águas de um rio vêm de longe, têm um passado fantástico e glorioso e nunca param. Ela estão sempre em movimento, sempre acumulando novos conhecimentos, passando por lugares diferentes, conhecendo pessoas novas, deixando seu marco no mundo. E estão sempre indo a algum lugar. Sempre têm um destino, um ponto final, onde desaguam no mar. Nossa vida deve ser encarada assim. Nunca devemos esquecer de quem éramos nem devemos nos prender a quem nós poderemos ou iremos ser. O importante é quem somos agora.
Não adianta tentar explicar coisas como formação de um caráter, ou um futuro profissional, amoroso, etc. Definições técnicas sempre complicam. Aqui, tudo está sendo explicado pelo coração. Então... Porque todo esse vício com relação ao desperdício do tempo, a superestimação do passado e do futuro e o esquecimento do presente? Simplesmente porque é maravilhoso viver. E todos deviam estar conscientes disso. Teoricamente, nós só temos uma chance para viver, somos presenteados com uma vida, apenas. Não importa se chegamos a viver 10, 30, 50, 70, 90 ou 100 anos. Todo tempo é pouco. E o pouco tempo com o qual fomos abençoados deve ser utilizado de forma mais rebelde, independente, sem preocupação. "Vou trabalhar agora e mais tarde eu aproveito a vida", pensamento um tanto quanto arcaico. A vida é agora.
Está na hora de acordar, levantar, dar aquele bocejo gostoso que espanta o sono e nos envolve de preguiça e caminhar até a janela, olhar para a rua, para o prédio ao lado, para a menina passeando com seu cachorrinho, para a dona-de-casa varrendo sua calçada, para o sol que aconchega esse nosso mundo com todo o calor e luz que é possível transmitir. Está na hora de acordar e pensar na mãe que vai visitar mais tarde, ou no filho que terá milhões de estórias para contar, ao voltar da escola, na caminhada gostosa até a padaria e o cheiro do pão francês quentinho saindo do saco. Está na hora de imaginar o que podemos fazer para ajudar os outros, aqueles que nem se quer podem se dar ao luxo de desfrutar tão imensamente dessa dolce vitta, de pensar mais no próximo do que em nós mesmos, de amar sem medo e preconceito, de conversar sem tabus, de ligar para a mãe do nada e dizer que a ama ou convidar o pai para tomar um chopp um dia desses. Está na hora de tudo isso e muito mais. E essa hora não passou e nem vai chegar, ela é agora!!. A vida é agora!
Então, larguem aqueles conceitos capitalistas de vida, esqueçam das probabilidades disso e daquilo, esqueçam do "quem sabe", "talvez", esqueçam do "amanhã eu faço" e do "eu estou sem tempo". Parem de se perguntar quando algo vai acontecer e façam acontecer! Parem de perguntar "que horas são" e dizer demasiadamente "estou atrasado". Não é fácil. Também não é difícil. É uma abordagem diferente, mas é um pedido sincero para um "hoje" melhor. Esqueçamos do ontem e do amanhã, vamos enriquecer nosso hoje.
Vamos viver a vida da melhor maneira possível, marcar nossos passos nesta terra e mostrar às futuras gerações que estivemos aqui e fomos importantes, de uma maneira ou de outra. Afinal, só nos foi concedida apenas uma chance. Não vamos despediçar essa bênção. Agora, caminhar, olhar pra frente, e sorrir sempre que possível, o máximo possível. Que todos tenham uma linda vida!
Quem teve tempo para ler isso tudo com certeza tem tempo para ler um livro, caminhar numa praia, respirar. Admiro muito todos vocês.
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[Terça-feira, Maio 24, 2005]
Tudo Não São Rosas
Quando eu penso que tudo são rosas
Aparece-me você e diz que não é
Me diz que eu não sou tão formosa
Que eu não nasci pra ser sua mulher
E eu fico tão confusa
A fumaça esconde o seu olhar
Que me reprova e me recusa
As lágrimas que você me fez chorar
Mas eu te vi, eu te beijei
Eu te perdi e hoje eu sei
(refrão)
Eu sei que quanto mais eu penso em nosso amor
Parece que o tempo até parou
E me mostrou que você é minha sina
Eu sei que toda vez que perco a minha calma
Você parece ressurgir em minha alma
E eu descubro que você é minha ilha... minha ilha... minha ilha...
E você havia recusado
Seu direito de falar em amor
Sua mente controlava os seus atos
E todo sentimento que nos aflorou
E eu sei que eu sempre fui sua
Fui as ondas que abalaram o seu mar
Eu era sua água, terra e lua
Sua vida quando você não a tinha mais
.... (refrão)
Música minha... Ritmo de samba-mpb....
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[Sexta-feira, Maio 20, 2005]
É que às vezes...
É que às vezes, sabe, nós nem notamos o quanto mudamos. Respiramos o mesmo ar, caminhamos às mesmas calçadas, tomamos o mesmo caldo na esquina e fica difícil lembrar de quando éramos diferentes, de quando éramos mais jovens, mais sadios, mais ingênuos. Fica difícil olhar pro lado, pro amigo, falar besteiras sem sentido, dizer "oi" a um desconhecido. Fica difícil sermos nós mesmos e não sabemos porque. É tanto que achamos que estamos isolados, abandonados, jogados no meio da rua onde todo mundo pisa, onde é feira quando é sexta-feira ou sábado de manhã, quando é apenas asfalto para carro em dia de trabalho. E todo dia é a mesma coisa, mas percebemos cada dia como sendo diferente dos demais, pois a laranja pode estar mais doce ou mais azeda, o lençol pode está macio e velhinho ou duro e novinho, e a rádio toca as mesmas músicas mas sempre em ordem diferente, e os livros são sempre os mesmos mas cada capítulo é uma nova aventura. E os livros que às vezes esquecemos de terminar, e quando voltamos parece que estamos nos encontrando com um velho amigo que há tempos não víamos e às vezes parece que não haverá tempo bastante para lermos todos os livros que estão na estante. Tudo que nos resto somos nós mesmos e nossos amigos e nossos livros, e a estante que sempre vai estar cheia, e a rádio que sempre tocará uma nova música, e o amigo que sempre terá uma novidade, e a mãe sempre estará preocupada se estamos bem e nós continuamos mudando e evoluindo mas às vezes, e só algumas vezes, quem sabe não seria bom se púdessemos voltar um tempinho atrás e sentir o gosto da juventude de novo?
por Lalá Fernandes * 11:15 PM
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[Quarta-feira, Maio 18, 2005]
Por acaso...
Foi por acaso que uma estrela decidiu explodir-se a si mesma bilhões de anos atrás, espalhando fragmentos de rocha milio-quilométricos pelos vácuos do universo, infestando o que seria um lindo e claro mar de estrelas com pequenas partículas de sujeira, as quais nós denominamos de planetas e foi, ainda, mero acaso que uma dessas partículas decidiu residir próxima à estrela Sol, na Via Láctea, adquirindo, ali, todos os recursos necessários para criar na sua superfície água, terra, ar atmosférico e tudo o mais que conhecemos.
Foi por acaso que, por causa das reações químicas ocorridas na superfície deste planeta, pequenas e primitivas células começaram a nascer e, como que ansiosas para popular logo aquele imenso rochedo, passaram a dividir-se, multiplicar-se e ao longo dos milênios novas formas de vida começaram a surgir e reproduzir-se, povoando (ou seria infestando) cada centímetro de terra que encontrava e, com a evolução (a bendita evolução), finalmente surgiram os dinossauros, aqueles grande répteis sedentos pela liderança daquele planeta onde só sobrevive o maior, o mais ágil e o mais egoísta (lembra uma certa espécie moderna que ainda povoa tal planeta, um tal de homo sapiens sapiens) e assim seguiram vivendo e reproduzindo e comendo e brigando e, de repente, alguns dos dinossauros que podiam voar (os chamados ptero-etc...) começaram a criar penas, sim, isso mesmo, penas, e assim a evolução continuou até que, um dia, por mero acaso, um asteróide (uma peça do quebra-cabeça do qual faz parte esse mesmo planeta) decide visitar o amigo e esbarra nele, sem querer. Daí, por mero acaso, ocorreu a Era do Gelo.
Avançando alguns milhões de ano na escala da evolução do chamado planeta Terra do Sistema Solar da Via Láctea (incrível como os homo sapiens sapiens acham que são capazes de conhecer inteiramente tudo aquilo ao qual podem dar um nome), a Era do Gelo, que devastou 99,9% da vida que existia no planeta, foi passando, o gelo derreteu, as terras começaram a ressurgir e a se aglomerar em grandes pedaços (na verdade era um único grande pedaço, e a mamãe terra, que adora ver seus filhos multiplicarem, o dividiu em vários, para que cada um tomasse seu rumo) os quais conhecemos como continentes. Por mero acaso, algumas espécies sobreviveram à catástrofe (ou teria sido um milagre?) e, ansiando por voltar logo à antiga e obsessiva atividade de reprodução, começaram a, novamente, popular a Terra.
É bem estranho, mas, por acaso, as espécies que sobreviveram foram alguns peixes (peixes-répteis), aves (aves-répteis) e alguns anfíbios e destes, justamente destes, ao longo de mais alguns milhões de anos, foi que surgiram os primeiros hominídeos, justamente quando a Terra já tinha reparado a maioria dos estragos que seu irmão, o asteróide, havia causado. Tais hominídeos, com o crescente desejo de sempre tornar seu ambiente mais confortável à sua vivência, começaram a criar ferramentas, cozinhar as carnes, estabelecer domicílio estático e, obviamente, reproduzir, o que leva ao pensamento: "como foi importante o papel do sexo à evolução da Terra e dos seres vivos". E então, por mero acaso, ou mero caso, mero encontro sexual, foi que estes hominídeos foram evoluindo (homo erectus, homo sapiens, etc) até chegar ao estágio mais avançado até hoje, o homo sapiens sapiens, o homem moderno.
É fato conhecido que os homens sempre foram seres egoístas e antropocêntricos e egocêntricos e todos os outros -cêntricos que se baseiem no indivíduo e sempre queriam muito mais do que possuíam, mas foi por mero acaso que alguns homens decidiram aventurar-se a outros continentes a fim de encontrar riquezas desconhecidas e tornar famosos e idolatrados os seus nomes (não sem antes reproduzir com suas devidas mulheres e amantes) e foi um acaso ainda maior que alguns destes homens chegaram a América Latina, ou a América do Sul e aqui deixaram cair suas âncoras, declarando "terras agora pertencentes a país X" e todos já conhecem o que se sucedeu: tomada das terras, devastação dos índios, fundação de cidades, chegada de escravos vindos da África, consumação do ato sexual em terras sagradas. E a história conta com detalhes tudo que se sucedeu à chegada dos homens da Europa e não vale a pena contar estória repetida, portanto vamos passar logo deste ponto. Foi por mero acaso que, milhões de vezes seguidas em toda a América do Sul (mais especificamente no Brasil), os senhores de terra, os coronéis e todos os outros homens comuns se uniam às suas mulheres, compelidos pela força do amor, e faziam brotar sementes que gerariam novas gerações. E não podemos esquecer das vezes em que esse mesmos homens se viam tentados a cometer adultério com as índias, as negras, as escravas ou até a vizinha da rua e dali nasceram outras novas gerações de filhos mestiços ilegítimos, mas mesmo assim, ainda propensos ao amor e a felicidade. De qualquer forma, o amor gerou gerações infinitas de indivíduos que não são nada mais do que incorporações de seus antepassados, o próprio passado encarnado, revivido, revigorado.
E podemos até imaginar os poetas do Renascimento declarando-se à suas amadas, contando-lhes o vigor do seu amor em versos e rimas, em ritmo e música, em prosa e romance. E podemos imaginar como foi que, por acaso, na Modernidade, a filosofia criou nas pessoas um sentimento de liberdade e de que havia algo maior, algo indescritível a ser vivido, e milhões de amantes se encontravam encantados com aquelas inúmeras possibilidades do futuro e nem sonhavam com a 1° Guerra Mundial e, quando esta chegou, quantos casais não se abraçaram mais forte e beijaram-se mais vezes com o medo que o mundo viesse a desabar e suas vidas fossem destruídas. Quantos casais não sobreviveram a todas as desavenças do mundo, unidos pelo amor, ou pela amizade, ou por promessa, ou pelo dinheiro, ou pela obrigação para com os pais. Mas, por mero acaso, todos esses casais ora citados sobreviveram, em suas épocas, a todas as catástrofes que o universo os impôs, e contam, hoje, suas histórias, sejam em fósseis, fragmentos, desenhos rupestres, papiros, pergaminhos, papéis, livros, fitas, vídeo, cadernos, dvds e até Internet. Tudo o que nos rodeia hoje é fruto de milhões de encontros e desencontros casuais cósmicos, materiais e humanos e nós estamos aqui hoje por causa de toda essa história caótica e fantástica do mundo.
Mas a parte mais fantástica dessa história só veio acontecer da década de '70.
E foi por mero acaso que, em meados dos anos 70, uma garota de 14 anos estava comemorando seu aniversário com uma festa para seus amigos mais íntimos em sua casa quando avistou um bonito garoto, uns três anos mais velho, dos olhos verdes e cabelos loiros. Não conhecia aquele rapaz pessoalmente e ficou sabendo que ele não havia sido convidado e era colega de um dos participantes da festa. Seus amigos logo a apresentaram ao estranho e, por acaso, seus olhos se encontraram. Depois desta noite, o acaso mais uma vez decidiu interferir na vida de dois seres e os uniu em vários encontros frutos do próprio acaso. E assim ficaram juntos, inseparáveis, e logo se tornaram amigos, amantes, namorados, noivos e, 10 anos depois, marido e mulher, que se amavam tanto que no ano seguinte ao casamento, já eram pais. Decidiram chamar sua primeira filha de Larissa, por causa de um filme que, por acaso, haviam assistido anos antes. Logo em seguida veio Deborah e daí consideraram seu dever como seres reprodutores cumprido. E, talvez por acaso, aquela garota e aquele rapaz permaneceram e permanecem juntos há 31 anos e talvez permaneçam ainda, pela eternidade que vier em seguida. E quando estes dois jovens, Magda e Fábio, se forem, suas gerações descendentes lembrarão que foi pelo acaso de uma trocar de olhares numa festa em 1974, que eles estão ali.
Larissa Fernandes, em homenagem ao aniversário de casamento dos meus pais, Fábio e Magda, que foi no dia 9 de Maio de 2005.
Pai, Mãe: espero que o acaso continue a abrir novos caminhos de felicidade e amor em suas vidas. Parabêns.
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[Terça-feira, Maio 17, 2005]
O Rio das Almas Perdidas - Parte I: Da Chuva e do Asfalto
Ela caminhava serenamente, como se estivesse flutuando, àquelas ruas manchadas, sujas, riscadas pelo barro que a chuva havia espalhado, transformando o asfalto negro em um largo canvas que exaltava uma obra-prima da natureza, uma conseqüência do acaso. A chuva que caía perniciosamente naquele domingo lhe percorria o corpo como lençóis de cetim italiano roçando a sua pele, lembrando-a dos travesseiros luxuosos em que já havia se deitado tantas vezes. Sobre os quais havia compartilhado tortuosas noites de luxo e luxúria com homens robustos e bem-vestidos, amargurados pelas suas vidas monótonas e inconseqüentes, que nunca lhe atribuíram maior importância senão os de poderem desfrutar de sua inocente beleza e de seu amor carnal, os quais suas mulheres jamais puderam lhes suprir, às custas, apenas, de algumas poucas notas.
Mas não pensava mais nisso. Vivera uma vida simples e difícil. Passara fome e dormira em bancos de praça sem cobertor, sem agasalho, sem medo, sem arrependimento. Nunca havia desistido de lutar. Sempre tivera receios de que o futuro a atirasse para os canteiros para que os mais afortunados e providos de sorte pudessem passar à sua frente e tomar seu lugar na corrida pelo bem-estar, pelo sucesso, pela simples certeza da sobrevivência, mas nunca se deixou desabar pelos seus fracassos. Tinha tido força e coragem durante toda a sua vida. Batalhara todos os dias contra as forças da sociedade pomposa e elitista que lhe oprimia, lhe discriminava, lhe excluía, roubava-lhe o ar, recriminava suas vãs tentativas de subir um só degrau na escala das classes. Uma sociedade que reprimia o seu desejo de aprender todas aquelas coisas que ouvia estudantes discutindo na porta da escola, onde ela pairara, durante alguns anos da sua adolescência, a pedir um trocado, uma benevolência, um sinal de que a sovinice ainda não havia pervertido totalmente a alma humana. Na verdade, não era as poucas moedas que conseguia arrecadar que a atraía aos portões dos colégios nobres da cidade. Seu pai não pudera lhe oferecer uma boa educação em sua juventude e não havia um dia em que ela não desejasse estar entre aquelas crianças afortunadas, aprendendo sobre a vida, criando um futuro para si.
Aos 15 anos, após o falecimento do seu pai, sua mãe a levou para morar na casa de uma família nobre, aonde as duas iriam trabalhar como cozinheiras e faxineiras ou, nos termos do ¿patrão¿, seriam as ¿criadas¿. Pela primeira vez em sua vida, tinham um colchão e um lençol para se cobrir, tinham um teto certeiro e, embora nada daquilo pertencesse a elas, estavam gratas pelo pouco conforto do qual gozavam. No entanto, não podia deixar de lembrar de seu pai cada vez que deitava naquele colchão macio e limpo. Ele havia deixado uma pequena herança para a mulher e a filha e pediu para que elas fugissem para o interior a fim de evitar as numerosas dívidas que haviam acumulado ao longo dos anos. Mas sua mãe era demasiada honesta e, contra o último pedido do marido, pagou todos os credores, restando-lhe apenas uma pequena quantia que decidira guardar em caso de emergência. Uma semana depois, mãe e filha, já estavam instaladas na casa dos Grimaldis, graças a um sentimento de pena e culpa por parte de um dos credores do falecido.
Enquanto continuava a caminhar resolutamente as calçadas sujas e úmidas do centro da cidade, as feições no rosto de Maria mudavam na medida em que recordava cada acontecimento pelo qual passara durante sua vida. As lembranças levaram-na de volta aquele tempo, como se os estivesse vivendo naquele exato momento. Maria tinha um rosto que, muitas vezes, havia sido motivo de inveja e escárnio por parte das garotas que habitavam a casa de sua antiga patroa. Era de uma simetria quase perfeita, de feições delicadas, embora bastante determinadas. Seus longos e ondulados cabelos castanho-claros caíam-lhe perfeitamente, o dourado que haviam incorporado devido à contínua exposição ao sol proporcionara-lhe um ar rebelde, como na verdade se sentia, contrastando com sua inteligência e sua amabilidade. Usava o cabelo quase sempre preso com uma longa franja dourada cobrindo-lhe, quase que completamente, os olhos. Embora suas feições deixassem sempre transparecer sua apreensiva timidez, já fora morada de largos sorrisos e incessantes gargalhadas e, agora, enquanto revivia a memória do pai, lágrimas desciam pelo seu rosto, traçando todos os caminhos incertos e tempestuosos pelos quais passara.
Havia caminhado quase duas horas debaixo de uma chuva persistente, quando, logo à frente, Maria avistou o edifício que procurava. Apressando seus passos, atravessou a rua e deparou-se com um enorme prédio branco, cujas janelas se distinguiam por se estender horizontalmente ao longo da construção inteira, possibilitando que o sol chegasse a todas as enormes salas de leitura. Era uma biblioteca pública. Maria sentou-se em um banco que ficava de frente para a porta de entrada que, há esta hora, já estava lacrada e fitou o prédio durante um bom tempo enquanto seus sentimentos começavam a dominar-lhe.
Pensou, se um dia fui feliz, creio que você foi uma das maiores responsáveis.
A sua única visita à biblioteca, 6 anos antes, foi responsável por tudo que Maria viria a aprender, sobre o mundo e sobre si mesma, ao longo de sua vida. Aquele enorme prédio de mármore e vidro contribuíra, sem que ninguém percebesse, para a história de uma garota jovem, marcada pela angustia, pelo sofrimento e pela coragem de enfrentar tudo. Os livros contam estórias; as bibliotecas as escondem.
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[Domingo, Maio 15, 2005]
Da vida e da morte...
- A dor da vida. A alegria da morte.
- A vida é o que nós fazemos dela.
- O que nós fazemos da vida, da morte?
- Com a morte, nada fazemos. Ela é quem faz conosco.
- A morte é um momento da vida ou a vida é um momento da morte?
- Morte e vida se completam e, ao mesmo tempo, se repelem.
- A vida é começo? Morte é fim?
- A vida é uma linha complexa e infinita, pois não percebemos seu começo, nem tampouco seu fim.
- Morte e vida são recomeços. Sera a morte vida e a vida morte em planos diferentes?
- Morte e vida estão entrelaçadas de tal maneira que é impossível distingüí-las uma da outra. Só as percebemos individualmente quando ocorre a transição de um estado para outro: quando alguém nasce ou quando alguém morre.
- Seriam as transições nascimento-morte e morte-nascimento, transições entre dois mundos?
- Se forem, então a existência é contínua e infinita, apenas mudando de um estado espiritual para um material, ou vice-versa. O que é melhor do que acreditar que toda a nossa existência se extingüe quando o nosso coração pára.
Diálogo entre dois amigos e futuros jornalistas durante uma aula na faculdade. Professores, percebam: nem todo cochicho é fofoca.
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[Quinta-feira, Maio 12, 2005]
Do que pensamos... Parte 1
Por maior que seja o nosso esforço em acreditar que a vida é simples, é todo em vão. A vida não é simples nem tampouco complicada. Ela é o que nós fazemos dela. É difícil acreditar, as vezes, que todo o nosso futuro depende apenas de nós mesmos. É difícil crer que cada consequência que nos é acometida, é resultado apenas de nossas próprias ações. Não é fácil aceitar essas verdades, essa enorme responsabilidade de viver que nos é imposta no momento em que nascemos. Como disse Sartre, "o homem está condenado à liberdade". Nós somos condenados a sobreviver. E nem sempre isto é fácil. Aliás, isto nunca é fácil, nem devia ser. Por isso cada triunfo nosso é sempre celebrado com tanta vivacidade e cada decepção é sentida com toda a nossa tristeza. O que podemos fazer a favor de nós mesmos é começar a encarar nossa vida como uma sinfonia. Nós seremos os maestros, conduzindo toda a engrenagem do nosso viver. Seremos líderes da nossa própria existência, responsáveis por todas as nossas vitórias e tragédias. É um pensamento um pouco utópico. No entanto, não é inatingível. Cabe a cada um de nós tentar se entender um pouco mais e ponderar sobre as consequências, antes de cometer os atos. E quem sabe, um dia poderemos provar que Sartre estava errado. O homem não está condenado à liberdade, ele foi abençoado com ela.
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[Quarta-feira, Maio 11, 2005]
A Brincadeira
E você que me olhava e eu que olhava você e nossos olhares se encontraram sem que a gente percebesse e sem nos dar conta de nada nossos olhares se encontraram e a gente se fitou e se olhou e sua alma estava clara para mim e naquele momento a sua vontade era minha e o medo de falar algum inconveniente, alguma besteira que lhe fizesse virar as costas e me deixar com minha saudade, o medo de estragar o momento em que a gente se olhava discretamente e discretamente os nossos olhares se encontraram e eu me perdi no teu olhar, no oceano profundo e misterioso que era teu olhar. E as brincadeiras que tivemos que tirar um com o outro para que o outro não percebesse o que realmente queríamos nos dizer e você dizia besteiras bobas sobre sua vida e eu respondia que a minha também tava bem, e você me contava sobre sua vida e olhava para minha boca e eu contava sobre meus trabalhos e queria te beijar e horas e horas e horas se passaram com essa brincadeira infinita de quero te beijar mas não sei como falar e a brincadeira de que não sentira saudades de mim mas sentira saudades de mim e na minha meninice eu acreditei que você sentira saudades de mim e eu na minha meninice acreditei que você queria me beijar e você queria mesmo me beijar e o querer era recíproco e nas infinitas brincadeiras de querer e na minha meninice inocente que também te queria a gente se beijou... E for aí que nossa linda história começou.
Larissa Fernandes
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[Sexta-feira, Maio 06, 2005]
AVISO IMPORTANTE
POR FAVOR, LEIAM.
PARA OS LEIGOS EM MATÉRIA DE BLOG, CRÔNICAS, CRÍTICAS, HISTÓRIAS, POEMAS E AFINS, SAIBAM QUE NEM TUDO QUE SE FALA SE BASEIA EM FATOS REAIS. NESTE BLOG, 90% DAS HISTÓRIAS FORAM INVENTADAS POR MIM, OS POEMAS NEM SEMPRE SÃO SOBRE OS "MEUS" SENTIMENTOS E AS CRÍTICAS NEM SEMPRE FORAM FEITAS DESTINADAS À ALGUÉM (OU ALGO) EM PARTICULAR.
SE TENHO UMA IDÉIA, ESCREVO. AS VEZES FANTASIOSAS, AS VEZES EXAGERADAS, MAS TODAS COM FINALIDADE DE ENTRETER. APENAS ISSO.
NO MAIS, POR MIM, NÃO TERIA FEITO ESTE AVISO, PORQUE QUEM LÊ MEU BLOG ME CONHECE E SABE AS REGRAS DESTE SITE.
VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO!!!
(Este aviso está destinado a um "amigo" meu, que se sentiu ofendido pelo texto e decidiu me ameaçar, escondendo-se, covardemente, atrás deu uma tela de computador. Mas, aproveitando a situação, também é destinado a qualquer pessoa que queira usar algo deste blog contra a minha pessoa. Não tenho medo. Manda brasa!!)
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Gente, escrevi este texto no dia 18 de Fevereiro de 2004.
Universidade ou Shopping Center Com Salas de Aula?
Universitária, finalmente. O sonho brasileiro de todo formando do ensino médio. Enquanto alguns lutam para um lugar nas melhores faculdades federais, outros se contentam em farrear e ter seus pais para pagar uma privada. Infelizmente, esse é o meu caso. Não vou dizer que fui uma completa desinteressada. Estudei o que pude, o que quis, o que tive paciência para estudar e sai quando quis e até quando não quis. Mereci não passar na federal.
No entanto, acredito que, algumas vezes, a universidade federal não seja muito justa em seu processo de seleção. Afinal, fui obrigada a assistir dezenas de amigos inteligentes, estudiosos e que mereciam um lugar na faculdade perderem suas vagas para pessoas menos qualificadas. Esses casos acontecem às vezes por mera falta de sorte ou por corrupção por parte da Universidade.
No final das contas, aqueles que não passaram na universidade federal são obrigados a ou entrarem em um cusinho e tentar novamente, ou cursar uma faculdade privada. Bom, sabemos que nem toda faculdade privada tem os padrões da federal. Minhas intenções não são de subestimar as capacidades das privadas e sim de comentar um pouco sobre algumas atitudes extravagantes e desnecessárias das mesmas.
Afinal, sejamos sinceros, uma universidade que gasta milhares de reais para promover sua imagem e convencer os estudantes a ingressarem não pode ter uma lista de objetivos muito boa. As propagandas mostram os alunos todos arrumados, as meninas de salto alto, mostra as lanchonetes, os alunos conversando e, um pouco estranho, mostra as salas de aula vazias. Não sou publicitária ainda, estou no primeiro ano. Mas creio que algumas coisas tenho que ter para me dar bem na área, e a primeira é um bom olho para propagandas publicitárias. Se eu estivesse encarregada de toda a divulgação desta universidade, o faria de modo diferente. Como estaria divulgando uma "escola", a primeira jogada seria filmar a sala com os alunos dentro e as lanchonetes vazias, ou com poucas pessoas. Isso demonstraria a dedicação dos alunos e professores à aulas. As salas vazias passam a imagem de desinteresse e, cá entre nós, muitos alunos "filhinhos de papai" não estão muito interessados em uma vida acadêmica muito agitada. Formam-se se arrastando, nos últimos lugares. Acabam se tornando maus profissionais.
Claro que isso não é regra geral. Há exceções. Muitas. Mas de qualquer maneira, não me alegro em ver alunos desfilando nas passarelas da faculdade como se fosse a São Paulo Fashion Week, conversando sobre as últimas noticias do programa de Ana Maria Braga e Ratinho e marcando para comparecer ao próximo show da banda de forró Cheiro de Gado. Até nas aulas ocorrem as atividades clandestinas de bate-papo por bilhetes que os mais interessados achavam ter superado ao sair do pré-vestibular. Sinto saudades de algo que nunca vivenciei. Pensei que, ao entrar na faculdade, encontraria pessoas parecidas comigo, que gostassem de ler, ouvir um rock, assistir programas interessantes e simplesmente ter conversas inteligentes. Como eu me enganei.
Estou começando a me acostumar. Embora assista as aulas normamente, faça anotações e leia constantemente tudo que os professores pedem, comecei a achar interessante analizar o comportamento dos outros alunos. Eles têm uma rotina fascinante. Durante a primeira aula combinam o que vão fazer no intervalo e relatam os acontecimentos do dia, depois vem o intervalo, o HIGHLIGHT da noite. A lanchonete, nesses momentos, vira uma verdadeira feira. Até vendedores de bijuteria já pude avistar lá.
Às vezes esqueço-me até que estou na faculdade. O sinal toca para o segundo horário e ninguém se mexe. Ainda passam uma meia hora na "praça de alimetação" até que alguns decidem ir à aula e outros seguem, mas isso é só "às vezes". Nessas horas sinto um pingo de arrependimento por não ter estudado mais e entrado na federal. Mas acredito que as coisas possam melhorar. Ao longo desses próximos quatro anos creio que poderemos definir quem são os interessados que serão bons profissionais no futuro. Os outros batalharão na vida (ou não, dependendo da situação financeira dos pais) e muitos se darão mal. Mesmo com uma visão pessimista como essa, rezo para que todos se dêem bem no futuro e espero que abram seus olhos.
Falo tudo isso da boca pra fora. Pois converso um pouco nas aulas, posso extender em até 15 minutos o meu intervalo e às vezes saio mais cedo da última aula. Menos na sexta-feira. Na minha sala, onde estudam 50 alunos, nas sextas esse número cai para 14 ou 15. Nesse caso faço questão de estar na sala e marcar presença na vista do professor. Esperta, não? Também não podemos exagerar nas mordomias. No final das contas, aquilo é uma universidade e não um shopping center.
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[Quarta-feira, Abril 27, 2005]
Diálogos absurdos e prováveis: 3
Um rapaz, deitado em sua rede num sábado à tarde, olha para o seu celular e lembra de um amigo com quem não fala há muito tempo. Decide ligar para ele pra matar a saudade e jogar conversa fora...
Rapaz1: ... (esperando o outro atender)
Rapaz2: Alô? (diz com a voz meio fraca)
R1: Fala cara! Tava com saudade de você e decidi ligar! Como você tá?
R2: Pow cara, que bom que você me ligou, estou num momento muito apertado da minha vida...
R1: Qué isso, amigo... O que ta acontecendo?
R2: Mermão, tô precisando de uma força, uma ajuda. Tô muito apertado..
R1: Minha nossa cara! Voce devia ter me ligado. Com o quê eu posso ajudar?
R2: Estou numa situação onde ninguém pode me ajudar... Nem você, cara, nem você...
R1: Qué isso cara... Tá ruim assim?
R2: A merda tá grande mesmo, véi... Só eu posso me ajudar agora... (diz com a voz meio rouca e tremida)
R1: Cara, você tá bem? Quer que eu vá ficar ai com você um pouco, brother?
R2: Porra... Valeu brother, valeu mesmo. Mas acho que se você viesse pra cá só ia piorar a situação... Ahhhhhhhhhhh!!!!! (fala calmamente, tremido, e no final, um grito inesperado
R1: Ei! Tô indo praí agora viu!!! O que você fez???? Não vá fazer besteira...
R2: A situação tá cada vez pior... Acho que dessa vez não vou conseguir, tá muito dificil... (diz, quase chorando)
R1: Ow brother... Não é assim não. Você não pode desistir assim. Eu sei que quando a merda tá grande a gente quer só correr pra bem longe... Mas é só ter coragem e força e enfrentar a situação com muita determinação...
R2: Eu acho que já tentei de tudo... Tô começando a achar que vou ficar aqui pra sempre, essa última hora tem sido umas das piores da minha vida... Nunca sofri tanto... (aqui, não se aguenta e cai no choro)
R1: Nãooo cara! Faz isso não... Seja forte!! Eu sei que a situação deve tá dificil.. Pow.. Nunca te vi desse jeito.. Ainda bem que eu te liguei... Olha... Vou tentar te aconselhar... Vou dizer exatamente o que você vai fazer, certo?
R2: Cara, não tem jeito... Acho que vou explodir.... A pressão tá grande e a minha única saída não está funcionando...
R1: É porque você tá nervoso, véi... Mas funciona... Olha, segue o que vou dizer, ok?
R2: Ok... fala véi..
R1: Primeiro quero que você pense no seu problema como se fosse algo bem simples...
R2: Não tem como, já estou tão fundo que não tem como fugir..
R1: Tenta cara..
R2: Pronto... simples, agora vá... diga o resto rápido senão eu lembro do tamanho dessa merda de novo...
R1: Tá bom. Agora quero que você visualize seu problema sendo resolvido bem facilmente... Como se não fosse nada..
R2: Nossa... Deixa eu ver... Ahh como eu queria... Pronto... Pensei...
R1: Agora quero que você respire bem fundo e expire bem devagar... Medite um pouco. Pense bem na resolução do seu problema e visualize ele sumindo, indo embora tão leve como uma pena, deslizando de dentro de seu corpo para o exterior, para fora de você...
(alguns segundos se passam em absoluto silêncio)
R1: Alô? (quando ia chamar o amigo novamente, o escuta soltar um longo e pausado suspiro de grande alívio do outro lado)
R2: Cara, queria lhe agradecer... Tô muito feliz... Sério mesmo... Por sua causa irmao... Você é um brother mesmo... Porra... Valew!!
R1: Como assim??? Já resolveu????? O que..(antes de completar a frase, escuta, do outro lado do telefone, um forte barulho de chiado)
R2: Já, deu tudo certo, muito obrigado.. Você não sabe o meu alívio... Nunca me senti tão bem e tão livre...
R1: Porra... de nada... Mas.. Não entendi... O que era que.. (Outro longo barulho de chiado e uma pancada seca)
R2: Cara, agora que eu tô pensando com clareza, a merda nem era tão grande assim.
R1: Ahn??????? Não?
R2: Não, não chegou nem a entupir o vaso. Bem que você disse, desceu rapidinho...
O outro, bate, indignado, o telefone e jura nunca mais ligar para antigos colegas.
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[Terça-feira, Abril 26, 2005]
A Vida Bela
São coisas que me passam pela cabeça
Misérias e dores que tento esconder
E quanto mais eu choro mais afloro para o mundo
E vivo intensamente cada erro do meu ser
E choro sentada no chão do banheiro sem ninguem pra me abraçar
E sinto cada vez mais que não há razão para me lamentar
(refrão)
Sempre eu vejo um anjo vestido de branco
Que me lembra todas as vezes em que sorri
E custo a lembrar o quanto a vida é bela...
Sempre que pego no escuro
Vejo que há uma luz no final do túnel
E volto a acreditar que a vida é bela
Sempre que me olho no espelho escondido num canto
Fugindo da minha indiferença, das minhas incertezas
Quase me confundo com meu reflexo, tão indiscreto
E sinto novamente a profundidade da minha tristeza
Eu vivo sempre isolada, sempre tão calada
Fujo de mim mesma e demoro a me encontrar
(refrão)
Uma música que escrevi semana passada. Modéstia à parte, acho que ficou muito bonita, ainda mais no violão...
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[Sexta-feira, Abril 22, 2005]
Sou eu, simplesmente eu...
Sou eu que erro, eu que peco, eu que nego todos os meus erros, que aceito todos os meus medos, que erro novamente sempre como se pela primeira vez.
Sou eu que falo demais, que rio demais, que choro demais, que vivo em euforia, que sou dura crua e fria, que sempre calo ante o que mais angustia.
Sou eu que ouço muito e pouco digo, esqueço-me de mim mesma e só me lembro da solidão, sou eu que procuro amparo em ombros errados e sou eu quem peco por pecar em vão.
Sou eu que ando em linha descontínua, que rezo todo dia para nenhum Deus em particular, sou eu que prezo alguma vida, sou eu que sempre custo a me abençoar.
Sou eu que vicio em tudo, eu que sempre gosto e aceito tudo, eu que não odeio nada nem ninguém, sou eu que fumo e bebo, penso esclareço, rezo, vivo, morro, sou um berço, e bem sem jeito, resnaço, me refaço.
Sou eu que reconheço todo o meu caráter, minha irresponsabilidade, minha irreverência, sou eu que me orgulho da minha complexidade, da minha própria complicação, da minha extrema alegria, da minha aflição.
Sou eu que nunca me acostumo com o dia-a-dia, que detesto rotina e evito prazos, sou eu que prefiro um simples gesto de carinho do que o presente mais caro.
Sou eu que causo perturbação por ser tão eu, sou eu que inspiro desconfiança e desprezo por ser tão somente eu, sou eu que não ligo, me desligo, me reviro só, sou que saio, desmaio, caio só e me levanto mais só ainda.
Sou eu que não quero elogios nem críticas, sou eu que não aguento mais a corrupção pessoal, a exclusão social, a exploração braçal, a rejeição mental, ao desapego cultural, ao nível tão cordial, a formação de elites do poder.
Sou eu que não entendo democracia, capitalismo, governo, fome, eu que critico, desminto, reivindico meus direitos se ser simplesmente eu.
Sou eu que não irei jamais mudar, sou eu que sempre continuarei assim, deste jeito, complexa, difícil e complicada, eu, simplesmente eu.
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[Terça-feira, Abril 19, 2005]
Do início...
Foi em um dia ensolarado, quente, úmido, um dia de desconforto e falta de paciência quando estava andando apressada pela calçada, meio que sem rumo, e avistei de longe aquela figura caminhando em minha direção, alguns metros à frente. Não havia nada de diferente naquele indivíduo. Não era feio nem bonito, nem largado nem elegante e cheguei logo à conclusão de era apenas desinteressante, sem sal. De tal maneira que poderia facilmente passar despercebido por onde andasse. Fiz esta análise em menos de 20 segundos, o tempo que levei para levantar minha cabeça, avistá-lo, avaliá-lo e baixar novamente a cabeça, já imersa em outros pensamentos. Como sempre, não dei mais atenção do que devia.
Jamais imaginei que os momentos que se seguiriam iriam definir minha vida como um todo, mudar meu caminho de repente. Pareceu até coisa do destino. E eu que nem acredito em destino. Sigo a linha de pensamento contida numa frase que escutei em um filme, certa vez: "Não acredito em destino pois não acredito no fato de que não estou em controle da minha própria vida". Mas asseguro que se foi obra do destino o que aconteceu comigo, então que ele seja abençoado. Pois, pelo menos desta vez, acertou em cheio. Mas isso eu só saberia depois, muito depois. E é melhor deixar este assunto de destino para lá. É como discutir futebol, religião e política: começa com conversa, entra na discussão e algum infeliz sempre acaba machucado. O destino parece comigo, é complicado e difícil de entender, mas no final, sempre se revela majestoso. Majestosa foi minha vida depois desse dia. Nos 5 minutos que seguiram à primeira olhada naquele desconhecido cabisbaixo.
Gente... sei que tá muito primitivo esse texto... Primeiro... não está completo.. Falta um bocado... Segundo, é uma idéia que tive para um livro... Seria o primeiro capítulo... Mas seria um livro simples, real, cru na linguagem, bem coloquial, sem arrodeios.. APenas uma história contada como se estivesse conversando com alguem... Espero conseguir acabar!!! hehehehehhe
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[Terça-feira, Abril 12, 2005]
Uma declaração de amor...
Nem sei por onde começar. O que tenho para te falar são coisas que só meu coração pode expressar verdadeiramente. São coisas que mil palavras não começam a descrever e poesia nenhuma é capaz de criar tantas rimas. São coisas que passam pela minha mente todos os dias desde o dia em que te conheci.
Já te falei do dia em que te conheci? Já te conhecia anos antes disso. Sabia que você viria, que me encontraria. Mas no meu coração eu já havia te encontrado, você sempre fez parte de mim, sempre soube da sua existência. No dia em que te conheci parecia que havia nascido novamente. Quis pular, gritar, chorar de felicidade. Quis sair correndo pela cidade, dançando nas ruas, cantando alto. Quando seus olhos encontraram os meus parecia que eu havia me encontrado pela primeira vez. Soube, finalmente, o meu propósito neste mundo, o porquê das minhas decepções anteriores, meu coração partido. Você entrou na minha vida como o rio entra no mar. Veio navegando calmamente pelas ondas até chegar na minha frente, naquele dia, quando entendi que jamais ficaria sozinha novamente.
E foi assim que começou o nosso conto de fadas, nossa história de amor, de amizade, de vida. Somos um só desde o começo. Você faz tanto parte de mim que nem sei mais onde eu começo e você termina. Somos um círculo, sem início nem fim, apenas uma extensão de suspiros e beijos. E rezo todos os dias para que esse nosso vículo dure a eternidade toda. Para que nunca nosso círculo seja quebrado. E sei que haverão barreiras. Sempre haverão barreiras, obstáculos, brigas, intrigas, discussões. E sei que amarei todos esses momentos. Pois cada briga, cada discussão, cada inconveniente nos levará àquele momento de reconciliação. E são nestes momentos de reconciliação que renascerá o nosso amor, nos veremos como nos vimos naquele primeiro dia, quando nos olhamos pela primeira vez, e toda a mágoa se dissipará.
Você sempre me surpreende. Sempre... Com palavras, gestos, um sorriso, um olhar. E sei que sou uma pessoa difícil de se lidar, mas você nem reclama. Sou complexamente simples, ou talvez simplesmente complexa e você me ama neste turbilhão de sentimentos que vai desde a extrema felicidade ao terrível mal humor. Mas você nunca nem pediu para que eu mudasse. E você sabe que eu jamais mudaria e me ama porque sou assim mesmo, cabeça dura, cabeça feita. Sou chata, irresponsável, criativa, artista, sonhadora, não meço palavras nem atos. Você me amou por tudo isso e muito mais.
Você veio como quem precisava me encontrar, me ter na sua vida. Sua vida, tão diferente da minha. Eu, com meus problemas, você com suas soluções. Éramos, desde o começo como o ying-yang, dois extremos que deram certo, opostos que se atraíram. Como os pólos negativos de um ímã. Você olha-me sempre e escuta o que eu falo e me entende. E eu falo tanto. Não lhe dou nem a chance de descobrir o que penso, digo-lhe logo. Já você, para mim, sempre foi o maior mistério do Universo. E eu te amo por você ser esse Universo que paira sobre mim, que me dar amparo, sossêgo, respostas, carinho, incontáveis noites de beijo do sofá da sala, amor incondicional. Você, no seu silêncio, no seu mistério, me revelou todos os segredos do mundo.
Não quero lhe dizer mais nada. Quero agradecer-lhe por sempre ter estado na minha vida, antes mesmo de eu ter nascido e a eternidade depois que eu tenha morrido. Quero agradecer-lhe por ter sido uma presença tão consistente no meu dia-a-dia, como o ar que sai da minha boca, ou o vento que percorre o meu corpo, ou a chuva que se derrama em mim no inverno. Quero agradecer-lhe por ter me amado com todos os meus problemas, todas as minha loucuras e toda a minha paixão.
E, prometo-lhe agora, que o amor que sinto por você durará para sempre. Te amarei pela sua simplicidade, sua complexidade, seu silêncio, seu mistério, sua transparência. Estarei do seu lado como você sempre esteve do meu, enxugarei suas lágrimas na minha blusa e a guardarei comigo sempre, prestarei atenção a toda palavra que me disser pois estas serão armazenadas no meu coração como um livro de recordações da nossa história de amor. Prometo, por fim, que tudo que falei é a mais pura verdade. Verdade que meu coração decidiu derramar hoje. Por sentir sua falta neste momento, por querer te ter aqui agora como sempre te tive. Meu coração me suplicou que escrevesse isto para você para que você soubesse (e eu sei que você já sabe) que meu amor por você é o mundo, é o universo, é tudo que existe e um pouquinho mais, e que, se algum dia tivermos que partir, nosso amor explodirá pelos céus e suas faíscas flutuarão pelos ares espalhando nossa história pelo mundo. O que eu sinto por você é inadjetivável, simplesmente isso. E agora você sabe. Para resumir tudo isso em uma simples frase: meu amor, eu te amo.
Carta de amor para um alguém que ainda não conheço. Não sei quem você é, mas sei que está aí. E mesmo sem nunca ter te conhecido, já sinto isso por você. Pode ser que você demore, pode ser te encontre amanhã. Não importa, tenho tempo. Mas saiba com antecedência. Sempre te amei.
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É tudo isso e muito mais...
É injusto, é impuro
É um tiro no escuro, é o fim do mundo
É perigo, é castigo
É um crime, é um grito
É lástima, é lágrima
É insônia da alma, é perda da calma
É anorexia da felicidade, é pura vaidade
É a margem da certeza, é o ápice da tristeza
É um erro repetido, é um sedento inimigo
É perda de confiança, é turbulenta ânsia
É não poder dormir, é nem querer nem conseguir
É ignorante, é irrelevante
É algo chocante, é acontecimento marcante
É o corpo sem forças, é eterno bate-boca
É perda do ânimo, é totalmente insano
É deplorável, é impensável
É um erro terrível, é inconcebível
É mais que uma loucura, é quase uma injúria
É culpa, não é desculpa
É desconsideração, é partir o coração
É gesto obsceno é maldade, é pura vulgaridade
É tudo isso e muito mais...
Quando um filho decepciona seus pais...
(Será que tô mal?)
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